As visões do mito

As visões do mito se referem às varias maneiras que se pode abordá-lo.

O mito tem diferentes possibilidades de estudo e há um olhar para cada possibilidade.

As visões do mito

As visões do mito


Ao utilizar a expressão “visões do mito” estamos indicando que o mito pode ser visto de diversas formas, ou seja, existem variadas maneiras de se abordar o mito.

Isto aponta diferentes possibilidades de estudo e formas de se ver o mito.

Para o estudo das abordagens ou visões do mito utilizaremos excertos da obra de James Hollis: “Rastreando os deuses: o lugar do mito na vida moderna”:


As visões do mito


A visão do antiquário

Esta abordagem reconhece explicitamente nossa curiosidade natural sobre outros povos, especialmente nossos antepassados.

[…] Se entendermos o mito só como um artefato típico para antiquários, no entanto, podemos não perceber a contribuição que o passado tem a oferecer em termos da ampliação de nossas atuais concepções sobre as possibilidades do humano.


A visão sociológica

Essa é uma leitura do mito que o entende como veículo de valores sociais de um dado grupo.

[…] O que importa são os valores que a sociedade deseja reafirmar, e os padrões escolhidos para defini-los.

[…] Quando examinamos o caráter sociológico de um mito, portanto, estamos discernindo as particularidades que distinguem uma cultura de todas as outras […].


A visão histórica

O entendimento histórico do mito enxerga as narrativas dos deuses e heróis como relatos esmaecidos de pessoas e eventos reais, embora transformados pela alquimia do tempo, da transmissão oral e dos acréscimos da imaginação.

[…] Porém, o mito ser baseado em local, indivíduo ou evento específico ou não é fundamentalmente irrelevante para seu testemunho maior das permutas geradas pelo espírito humano.


A visão protoscientífica

Há muitas pessoas que entendem o mito como uma leitura inadequada da natureza, como aquilo que era feito pelos humanos antes do advento da ciência.

Estes esquecem-se de que os motivos da ciência são igualmente mitológicos.

Pensam que o mistério que batizamos de gravidade, por exemplo, é compreensível simplesmente porque lhe demos um nome.


A visão antropológica

[…] No corpo cultural produzido por qualquer unidade tribal, nos ritos e práticas cúlticas de uma civilização, pode-se imediatamente identificar um caminho primordial de acesso aos mistérios.

[…] Ao recuperar os mitos e ritos antepassados, temos condição de rastrear os deuses, de discernir as metáforas básicas que conferem algum sentido ao modo como outros se posicionaram em sua relação com os mistérios.


A visão linguística

O estudo etimológico de uma palavra, um conceito ou mitologema em geral oferece uma considerável amplitude de entendimento da raiz metafórica que emergiu para expressar a inexprimível experiência primai..

[…] Aquilo que essas raízes metafóricas implicam sobre o humano em sua relação com o divino esclarece nossas próprias experiências.


A visão psicológica

Há dois séculos, Immanuel Kant observou que nunca podemos conhecer o mundo dos objetos em si; apenas conhecemos nossa experiência subjetiva dos mesmos.

Jung foi um pouco mais adiante quando declarou que toda experiência humana é essencialmente psicóide, quer dizer, tem tanto componentes materiais como mentais.

A encruzilhada de todas as linhas das experiências internas e externas encontra-se na psique humana.

Além disso, estamos constantemente projetando nossa vida psíquica na tela do mundo à nossa volta.

[…] Com nossas histórias de ficção e canções estamos retratando dimensões de nossa vida interior.

Nesse sentido é que muitos estudiosos dos mitos têm-nos entendido como um fascinante acervo de cenários que dramatizam os processos da vida psicológica.

[…] Essa maneira de abordar o mito entende que ele seja uma demonstração da universalidade do funcionamento psicológico.


A visão arquetípica

Afora a possibilidade de transmissão intercultural de imagens, que em frequentes casos pôde-se provar não ter havido, ele concluiu que todos os seres humanos possuem um mesmo processo psíquico estruturante.

Esse processo enraiza-se na natureza e é tão instintivo quanto comer e dormir.

Sua finalidade aparente é oferecer um maior significado por meio de padrões impostos ao caos.

Denominou esses motivos recorrentes de arquétipos, termo cuja etimologia sugere “impressão” ou “padrão” primai, mas que também pode, com grande proveito, ser pensado mais como verbo que como substantivo.

Os arquétipos da psique estruturam os acontecimentos da vida diária em motivos que conferem forma e significado à vida.


A visão fenomenológica

Nossas experiências são de cunho fenomenológico, um movimento que percebemos no corpo e na alma.

[…] Os que passam por momentos primordiais, como o apaixonar-se ou presenciar o nascimento de seu filho, sabem que conceitos comuns são inadequados à tarefa da compreensão.

Os mitos são quadros vivenciados no plano dramático, seja qual for sua forma ou veículo; transitam num plano aquém do da dimensão consciente, que não obstante empenha-se em definir e controlar uma experiência que supera o poder da cognição.


A visão simbólica

Como talvez já esteja claro agora, o mito representa a cristalização das experiências básicas da vida, constituídas através de várias formas de imagens.

Tais imagens situam-se além da compreensão intelectual, mas são vivenciadas como significativas.

As imagens míticas ajudam-nos a nos aproximar dos mistérios.

O mito nos arrasta para mais perto das profundezas abissais do amor e do ódio, da vida e da morte, recintos dos deuses, dos mistérios, onde fraquejam as categorias do pensamento, que enfim silenciam num espanto mudo e aturdido.

O mito é uma maneira de se falar do inefável.

As visões do mito

Pascal certa vez escreveu: “O silêncio desses espaços vazios me apavora.“.

O mito é um meio de manter a conversa, quando o silêncio assombroso se instala.

Nas teorias e nos sistemas, estamos com a linguagem da mente; nos mitos, encarna-se a linguagem da alma.

Ler mitos, por conseguinte, é uma forma de psicoterapia pessoal e cultural (do grego psyche, alma e thera-peuein, ouvir ou atentar a).

É assim que psicoterapia, quer transcorra no consultório de um analista ou no plano de dedicada atenção à própria vida interior, é sempre “ouvir a alma”.

Os motivos recorrentes do mito constituem o movimento da alma através das eras e através da existência de cada um.

Vimos que existem diversas visões do mito ou maneiras de se abordar, algumas mais didáticas, outras inadequadas e outras mais profundas.

Mas abordagens são caminhos e caminhos são escolhas.

Independente do caminho ou caminhos a serem trilhados para o estudo dos mitos é essencial que se entenda que os mitos são expressões simbólicas e que as alegorias que neles estão presentes são expressões do inconsciente humano.