O unguento da beleza – Quarta tarefa de Psiquê

O unguento da beleza, a quarta tarefa de Psiquê é também uma odisseia da psique humana.

O aprendizado conquistado com vontade e bom senso.

O unguento da beleza – Quarta tarefa de Psiquê

O unguento da beleza


Afrodite retorna e vê que a terceira tarefa fora também realizada e então resolve dar a mais difícil das tarefas, algo que será impossível a moça realizar.

Afrodite ordena que Psiquê desça até os infernos e procure Perséfone, a esposa de Hades, o senhor do mundo inferior e dos mortos, e consiga com ela um pequeno cofre onde ela guarda seu unguento da beleza.

Afrodite se retira certa de que finalmente daria fim à moça.

Psiquê mais uma vez se desespera e então sobe em uma alta da torre para de lá se jogar, pois somente morrendo poderia chegar ao mundo dos mortos.

Psiquê antes de consumar sua estratégia fatal recebe novamente ajuda e desta feita não é de um ser vivo e sim da própria torre em que subira.

A torre lhe explica como realizar sua jornada ao mundo dos mortos.

A torre diz que Psiquê deverá levar nas mãos dois pedaços de pão de cevada e na boca duas moedas, que no caminho deverá recusar ajudar um homem coxo e também não deverá salvar um homem que estará se afogando.

Além de não se intrometer com as três tecelãs do destino e que ela também deve recusar qualquer coisa que lhe for dada para comer.

A torre instrui que as moedas serão para pagar o barqueiro Caronte que faz a travessia do rio Estige em sua ida e volta e que os pães serviriam para alimentar Cérbero, o cão de três cabeças e guardião das portas do inferno.

E Psiquê em sua jornada:

  • Paga o barqueiro Caronte na ida e na volta com uma moeda
  • Encontra um homem coxo que lhe pede ajuda para apanhar a lenha que caíra de seu jumento e ela nega ajuda
  • Encontra um homem que está se afogando e também recusa ajudá-lo
  • Encontra as três tecelãs do destino e apesar do desejo de interagir com elas segue seu caminho
  • Fica diante de Cérbero, o cão de três cabeças e atira um pedaço de pão na ida e outro na volta e em ambas situações as cabeças brigam entre si, pois é apenas um pedaço de pão e três cabeças e enquanto as cabecas de Cérbero brigam ela  se aproveita e passa por eles
  • Encontra Perséfone que simpatiza com ela e lhe oferece um banquete que gentilmente é recusado
  • E, por fim, ganha de Perséfone o cofre com o unguento da beleza

Bastaria agora à Psiquê entregar o cofre à Afrodite e ela teria cumprido todas as tarefas, mas não é isto que acontece.


O mito completo você pode ver aqui: O mito de Eros e Psiquê

O unguento da beleza – Quarta tarefa de Psiquê

A odisseia da psique


A quarta tarefa de Psiquê é uma verdadeira odisseia, assim como é o caminho do autoconhecimento e do autodesenvolvimento.

Inicialmente ela recebe a ajuda não de um ser vivo, mas sim de algo construído pelo homem: a torre.

A torre é uma edificação e podemos entender a torre do mito em nossa vida como algo construído pelo homem e que pode nos orientar na odisseia da vida.

As religiões podem ser vistas como exemplos da torre em nossa vida, pois foram criadas pelo homem com o propósito de atingir o desconhecido e o sagrado.

A psicologia é outro exemplo de torre.

Uma das instruções da torre é a de que Psiquê deve controlar a sua generosidade ao ter que negar ajuda ao homem coxo e ao homem que se afoga e esta é uma instrução de difícil compreensão para nós.

Isto porque a bondade é uma virtude esperada de todos.

Mas aqui o mito aponta simbolicamente que o bom senso é que deve orientar a generosidade, ressaltando que as situações do mito são somente alegorias e não exemplos de situações reais, devendo se considerar, desta forma, o seu significado simbólico e não o moral.

O mito aponta a necessidade de muitas vezes na vida termos que dizer “não”, mas isto é tão difícil para pessoas com temperamento Psiquê.

Num mesmo dia alguém pode receber ligações telefônicas de instituições de caridade, a campainha ser tocada algumas vezes com pessoas solicitando ajuda, pessoas na rua estendendo as mãos, outros pedindo na parada do semáforo ou dentro dos ônibus e etc..

Há horas em que a generosidade indiscriminada ultrapassará o bom senso.

Sobre a instrução da torre de não se intrometer com as três tecelãs do destino é algo bastante difícil para a maioria das mulheres, pois aqui o mito nos indica que muitas vezes não devemos interferir na teia traçada pelo destino, pois existem situações em que não somos as tecelãs do destino.

Mas como é difícil uma mãe não achar que ela é a tecelã do destino de seus filhos!

E para outras mães como é difícil entender que o destino delas não é “somente” ser mãe e que existem outros papéis a desempenhar na vida como mulher, esposa, amiga, profissional, etc..

Difícil para muitas pessoas entender que cada um deve cuidar da sua vida e que cabe a cada um escrever seu próprio destino.

Psiquê também foi orientada a recusar qualquer alimento que lhe fosse dado no reino dos mortos e ela recusou o banquete oferecido por Perséfone.

E a mensagem do mito é a de que não devemos nos alimentar em qualquer lugar, temos que ser seletivos.

Aqui o alimento vai bem além do alimento físico propriamente, refere-se também ao alimento mental e espiritual.

As refeições têm um significado bastante forte e exemplo disto é Cristo que se reunia com seus discípulos e ali os alimentava com o pão do conhecimento.

Afora tudo isso, a refeição também pode significar o estreitamento de um laço e como exemplos disto podemos destacar as reuniões familiares aos domingos, as ceias de natal e até o homem que se interessa por uma mulher e a convida para jantar.

O unguento da beleza – Quarta tarefa de Psiquê

O episódio em que alimenta o cão Cérbero com o pão representa o alimento de nossa mente, pois o pão representa o conhecimento e Cérbero representa o cérebro.

Nosso cérebro briga pelo conhecimento, pois é da natureza humana a fome pelo saber.

O pagamento ao barqueiro na entrada e na saída do mundo dos mortos significa que em todas as vezes que entramos ou saímos de nosso mundo profundo, o inconsciente, temos que efetuar um pagamento.

As neuroses são exemplos de cobranças em razão de pagamentos não efetuados.

Qualquer transformação ocorre mediante um pagamento.

A moeda representa algo com valor e que pode fazer com que obtenhamos algo.

Esta moeda para nossa psique é a “vontade”.

A entrada e saída do mundo profundo é o processo de conscientização e é a vontade que nos possibilita fazer esta jornada da maneira correta.

Uma frase bastante comum de um psicoterapeuta é: “o cliente tem que ter demanda”.

Ou seja, o indivíduo precisa ter vontade, pois qualquer transformação enseja uma jornada ao mundo dos mortos, pois algo sempre morre simbolicamente em qualquer processo de transformação.

O fato da torre ter orientado para que Psiquê levasse as moedas na boca indica o cuidado que temos que ter com as palavras que da boca saem.

O unguento da beleza – Quarta tarefa de Psiquê

Paulo Rogério da Motta


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