A trajetória do mito na história humana

A trajetória do mito na história humana demonstra que os mitos representaram a expressão de uma cultura e hoje são formas estruturantes do mundo psíquico humano.

A trajetória do mito na história humana

A trajetória do mito na história humana


No tocante à trajetória do mito na história humana, algumas pinturas em cavernas do povo paleolítico da Idade do Gelo (Idade do Gelo. 38.000 a 8.000 a.C.) mostram cenas de caça com animais e de, provavelmente, xamãs personificados como meio-humano e meio-animal, como a do “feiticeiro” encontrada em Trois-Frères, na França.

A trajetória do mito na história humana - Trois Freres

Após a Idade do Gelo, a partir de 7.000 a.C., na idade da Pedra, com o desenvolvimento da agricultura, os povos europeus neolíticos esculpiram deuses em pedra e argila com características de animais, portando máscaras e também divindades femininas, sugerindo a configuração do arquétipo da Grande Mãe.

A trajetória do mito na história humana - Venus-de-Laussel-neolitico

Seguindo a trajetória do mito na história humana chegamos à Idade do Bronze, a partir de 2.500 a.C., com a utilização do bronze para criação de ferramentas e armas e com a invenção da escrita e da roda, houve a mudança para a adoração de um poderoso deus masculino e que passou a ser figura marcante nas mitologias grega, romana, escandinava e celta.

Segundo Boechat, na Àsia, na região da Mesopotâmia, encontra-se o mais antigo épico mitológico preservado:

A trajetória do mito na história humana[…] é o famoso Épico de Gilgamesh. Trata-se da história profunda e simbólica do rei da antiga cidade de Uruk, Gilgamesh, ‘o construtor de muralahas’. Copilado aproximadamente em 2.750 a.C.. O mito narra as peripécias de Gilgamesh (constituído de dois terços divinos e um terço humano) e de seu companheiro antropóide Eikindu, que veio dos céus num cometa.

Ambos desafiam a poderosa deusa Grande Mãe Ishtar (sempre a luta natureza versus cultura), e Einkidu é morto. […] o famoso Épico de Gilgamesh […] é constituído por vários poemas preservados em tabuletas de cerâmica cuneiformes das antigas culturas dos sumerianos, acadianos, hititas e cananeus.  (Walter Boechat, A mitopoese da psique: mito e individuação).

Gilgamesh é o precursor do herói e semideus greco-romano Héracles (ou Hércules).

A trajetória do mito na história humana - Gilgamesh

Outra passagem interessante do Épico de Gilgamesh é o grande dilúvio que se assemelha à passagem bíblica de Noé.

Ainda na Ásia, destaco a mitologia indiana que é repleta de deuses e suas histórias foram escritas em sânscrito e os textos mais antigos são os Vedas que foram transmitidos oralmente antes de serem escritos.

Na Oceania os mitos das ilhas dos Mares do Sul personificam a cultura de seus povos e destaco o mito australiano “O tempo do sonho” que conta a história da criação através de seres míticos que se transformam em paisagens e que, desta forma, continuam a fazer parte da vida dos homens.

A trajetória do mito na história humana demonstra que os mitos representaram a expressão de uma cultura e época e eram formas estruturais da sociedade e hoje, como expressões arquetípicas, são formas estruturantes do mundo psíquico humano.

[…] no século IV a.C., surgem as primeiras interpretações racionais do significado do mito, onde já se colocam as questões básicas: Como surgem os mitos? Qual sua função na sociedade? Essas questões são primeiramente postas pelos filósofos pré-socráticos da Antiga Grécia. Teágenes de Région e Pitágoras começam a indagar se os mitos não seriam alegorias dos elementos naturais. Os filósofos pré-socráticos ainda abordaram o mito de forma moralista, metafísica e alegórica. Os sofistas percebiam o mito como uma alegoria moral ou natural. No século V a.C. Heródoto inaugura a interpretação histórica dos mitos. Os deuses e eventos nada mais seriam do que situações históricas ocorridas em tempos remotos. As abordagens de Heródoto tiravam dos deuses o manto da sacralidade. (Walter Boechat, A mitopoese da psique: mito e individuação).

Aconteceu a transição do pensamento mitológico para o pensamento racional.

O pensamento racional é linear e serve somente para adaptar-se ao ego.

Seria um momento que os mitos poderiam ser esquecidos, mas Jung recoloca a mitologia como um processo simbólico e, assim, resgata o pensamento mitológico e indica a psique como a sua morada.

A trajetória do mito na história humana

Carl Gustav Jung: “O inconsciente coletivo – até onde nos é possível julgar parece ser constituído de algo semelhante a temas ou imagens de natureza mitológica, e, por esta razão, os mitos dos povos são os verdadeiros expoentes do inconsciente coletivo.”.

Paulo Rogério da Motta