Estrutura do trabalho do psicoterapeuta junguiano

O psicoterapeuta junguiano precisa estabelecer algumas regras para iniciar seu trabalho, conhecer suas ferramentas e saber seus propósitos para com o ser humano que o procurou.

Algumas considerações sobre isso!

A estrutura do trabalho do psicoterapeuta junguiano

O início do trabalho do psicoterapeuta


O início do trabalho do psicoterapeuta se dá com o estabelecimento do contrato de trabalho.

O contrato de trabalho serve para determinar as regras e valores que permearão a relação psicoterapeuta e cliente.

Os honorários variam de profissional para profissional, porém é necessário que o psicoterapeuta tenha a consciência de que está ali exercendo uma profissão e que a sua formação demandou tempo, energia, sacrifícios e dinheiro.

A forma como o cliente encara o pagamento dos honorários já é material para análise por parte do terapeuta e significados inconscientes estão presentes em frases como:

  • Ninguém se importa comigo se eu não pagar!”: Indício de que o autoconceito precisa ser trabalhado.
  • Estou deixando de comprar um carro para fazer psicoterapia!”: a psicoterapia é vista como um ato de sacrifício.
  • Ele (o psicoterapeuta) é que deveria pagar para me atender!”: megalomania e/ou egocentrismo exacerbado.

E o psicoterapeuta precisa também se acostumar com questionamentos de seu cliente, como:

  • Preciso pagar para alguém “apenas” me ouvir?

Ou seja, os psicoterapeutas precisam ter os ouvidos mais tolerantes de toda a humanidade.

As faltas às sessões precisam ter o seu significado, pois estão associadas ao valor da presença do cliente.

Se a ausência for considerada como algo sem peso, a mesma ideia vai servir para a presença.

Vale também a ideia de que o contrato terapêutico é estabelecido pela reserva de um espaço de tempo e mesmo na ausência do cliente este espaço de tempo continuará existindo e continuará destinado a ele.

O cancelamento de sessões com antecedência de aviso deve ser discutido na celebração do contrato terapêutico.

Também deve constar no contrato terapêutico o sigilo que permeará a relação entre psicoterapeuta e cliente, pois a confiança será essencial para que se estabeleça tanto o vínculo terapêutico quanto a apropriação do setting por parte do cliente.

A estrutura do trabalho do psicoterapeuta junguiano

A estrutura do trabalho psicoterapêutico


A estrutura do trabalho do psicoterapeuta junguiano se baseia na premissa de haver “finalidade” para que o trabalho exista.

Imprescindível lembrar que a grande pergunta que move o trabalho do psicoterapeuta junguiano é: para quê?

Mais importante que o “por que” e o “como”.

O psicoterapeuta junguiano estrutura seu trabalho na busca da finalidade, por isso, os símbolos são tão essenciais na psicologia de Jung, pois estes encerram em si um significado e o significado é a própria expressão da finalidade que responde à pergunta: para quê?

Diante de um complexo observado no cliente o psicoterapeuta junguiano deve analisar qual a finalidade daquele complexo estar constelado.

Jung dizia que a psique está sempre buscando equilíbrio ou homeostase.

A psique é autorreguladora e a constelação de complexos é uma busca de equilíbrio, portanto, todo complexo está a serviço da homeostase.

Esta conclusão não diz, entretanto, para que justamente aquele complexo foi ativado. Cabe ao psicoterapeuta descobrir em parceria com seu cliente.

Outra coisa: o psicoterapeuta junguiano nunca deve procurar enquadrar seu cliente na teoria. A teoria é apenas instrumento para melhor compreende-lo.

Qualquer teoria é um conhecimento generalizado e para a psicologia de Jung cada indivíduo é único.

Jung denominava de análise redutiva a ação de remeter as dificuldades presentes aos eventos do passado, ou seja, o efeito atual é delegado a alguma coisa acontecida no passado.

Na análise redutiva a grande pergunta é: por quê?

Jung não negava situações deste tipo, mas ele estava sempre interessado nas mensagens do inconsciente para a solução do problema e nas compensações provindas do inconsciente para equilibrar a atuação da psique, por isso, os sonhos são tão enfatizados na clínica junguiana.

Além da análise redutiva, outra opção na prática da clínica junguiana é o que Jung denominou de modo sintético.

O modo sintético se baseia num modo de compreensão simbólica e de síntese dos elementos conflitantes que, apesar de conflitantes, estão a serviço do processo de individuação.

Esta visão junguiana possibilita que os conflitos psíquicos tenham tanto origem no que foi acontecido quanto podem ser também uma manifestação da vontade de “vir a ser” da psique.

O “vir a ser” é algo que envolve possibilidade, criatividade e futuro.

Diante de algo vindouro a pergunta pertinente é: para quê?

Outra ferramenta de trabalho do psicoterapeuta junguiano é a amplificação que é um método de associação que se baseia na compreensão de um fato psíquico através do estudo comparativo da mitologia, religião, contos de fadas e simbolismo.

A amplificação auxilia bastante quanto ao questionamento: como?

Isto acontece porque a amplificação visa promover associações diretas de modo que a consciência circule em torno de uma imagem, conteúdo ou símbolo que está sendo explorado, esta atividade é denominada de circum-ambulação.

Circum-ambulação é o movimento circular em torno de um ponto específico com o propósito de estabelecer paralelos.

Desta forma, mais do que lidar com o fato literal, também é possível analisar o fato em sua essência simbólica.

Desta forma vimos que a estrutura do trabalho do psicoterapeuta junguiano se baseia em três questionamentos:

  • Por quê?
  • Como?
  • Para quê?

O último questionamento (para que?), porém, é o mais importante para o terapeuta junguiano, pois é nele que se encerra a finalidade.

Quanto ao ambiente do setting terapêutico, este deve ter a finalidade de acolher o cliente e não de manifestar crenças e projeções do terapeuta.

Se o psicoterapeuta optar por oferecer estímulos no setting, que estes sejam no sentido de serem instrumentos de trabalho e não vitrines para que seu ego exponha os desejos de sua persona.

A estrutura do trabalho do psicoterapeuta junguiano

O término do trabalho do psicoterapeuta


O psicoterapeuta junguiano precisa trabalhar com a ideia de que até o mais bem treinado psicoterapeuta será incapaz de atender satisfatoriamente todas as pessoas.

Uma relação terapêutica é uma relação humana e é necessária uma equação pessoal que contenha terapeuta e cliente dentro de uma relação produtiva e eficiente.

A avaliação do processo psicoterapêutico é um importante sinalizador para saber se o rumo do processo precisa ser modificado ou até, em casos mais extremos, se o mais benéfico para o cliente não é a indicação de outro profissional para a continuação do trabalho iniciado.

Observado o que foi dito e tendo sido realizado o trabalho psicoterapêutico cabe ao profissional a comunicação do término do processo, o que muitos chamam de dar “alta” para o cliente.

É comum o cliente não querer o término do processo, mas é importante que mesmo não havendo a vontade deste que a terapia tenha fim, para que o trabalho não se confunda com entretenimento e também para que não aconteça uma relação de dependência do cliente com seu psicoterapeuta.

Sempre importante destacar que a psicologia junguiana se baseia na finalidade, portanto, quando não houver mais finalidade para a psicoterapia ela não deve ser estendida.

Outro motivo para o término do processo psicoterapêutico é a desistência por parte do cliente e os motivos podem ser diversos.

O psicoterapeuta, porém, nunca deve “convencer” seu cliente a fazer psicoterapia.

O psicoterapeuta deve sempre oferecer considerações para que o cliente reflita e decida por si mesmo a realização ou não do trabalho terapêutico.

Finalizado o processo uma prática recomendada é fazer uma devolutiva na última sessão destacando toda a jornada e conquistas obtidas no processo psicoterapêutico.

A estrutura do trabalho do psicoterapeuta junguiano

Paulo Rogério da Motta