Sofrer e curar e a relação curador e sofredor

Sofrer e curar!

Tudo muda quando alguém sofre.

Muitos mudam quando sentem que tem poder.

O curador e o sofredor é uma relação comum na vida de psicólogos, médicos, sacerdotes…

Sofrer e curar e a relação curador e sofredor

O sofrer e o curar


É comum o homem que sofre se transformar em criança.

Medo, dor e possibilidade de morte é um curto caminho para alguém se sentir vítima.

O homem que antes era o senhor da casa, o protetor do lar, forte e protagonista torna-se uma criança que fala com voz chorosa.

É comum vermos médicos caminhando como seres supremos e imortais pelos corredores de hospitais, assim como os reis caminham em meio à plebe.

Aquele que tem o poder da cura se vê numa classe distinta daqueles que sofrem e são, muitas vezes, vistos como insensatos por que não se cuidam nem tomam seus remédios corretamente.

O abuso de poder ocorre quando é estabelecida a polaridade entre curador e sofredor.

O curador é a personificação do orgulho, do ser superior e, por vezes, é até cortês em seu distanciamento ilusório entre deuses e mortais.

O sofredor é a personificação do temeroso, do ser que regrediu ao sofrer e se infantilizou, que se vê como um infortunado e/ou vítima da ira dos deuses.

O relacionamento entre aquele que cuida e aquele que sofre é tão fundamental quanto as relações: homem e mulher, mãe e filho, pai e filho, etc..

Todo encontro humano é a interação entre a psique de um e a psique do outro.

Esta visão coloca um sujeito diante de outro sujeito.

O abuso de poder ocorre quando um se considera o sujeito e o outro o objeto.

O ser humano é coisificado!

E objetos são manipulados por sujeitos!

A auto deificação faz com que um se sinta um deus supremo diante de meros mortais e os deuses podem ser caprichosos.

Napoleão e Hitler são bons exemplos dos perigos que envolvem as relações em que um é visto como um deus.

A relação é perigosa para os que sofrem porque encontram conforto psicológico diante de alguém que vai conduzi-los justamente quando se sentem perdidos.

A relação é perigosa para o suposto poderoso porque alimenta a sua ilusão e ele goza da lisonja de ser cultuado.

Sofrer e curar e a relação curador e sofredor

O sofredor e o curador


Como deve ser a relação arquetípica curador-sofredor?

Antes de responder é preciso que analisemos com maior profundidade como é um arquétipo.

Os arquétipos são potencialidades inatas do comportamento humano e são ativados quando alguém se depara com uma situação que é típica e recorrente ao ser humano no transcorrer da história da humanidade, como: o encontro do homem com a mulher, a relação da mãe/pai com um filho, etc..

Nestes exemplos dados o homem reage à mulher e o filho à mãe/pai e vice-versa.

São arquétipos com dois lados, ou seja, com polaridades.

Considerando que os arquétipos são universais podemos entender que todos nós possuímos os dois polos dentro de nós e, aproveitando os exemplos dados, compreendemos que o homem tem a mulher internalizada em si como a anima e o filho tem em si a potencialidade de ser mãe/pai.

Acontece que quando um polo é constelado no mundo exterior o outro polo é ativado no mundo interior.

Na psicologia esta constelação em algo ou alguém que está fora é chamada de projeção.

Retomando a relação arquetípica curador-sofredor podemos ver que quando acontece a projeção acontece também a polarização, ou seja, é uma relação de opostos.

Retomando, desta feita, a pergunta: Como deve ser a relação arquetípica curador-sofredor?

A relação construtiva entre curador e sofredor precisa ser feita de tal forma que os dois polos arquetípicos estejam constelados internamente em ambas as partes: o curador ter ativado dentro de si tanto o curador quanto o sofredor e o mesmo acontecendo com aquele que sofre.

Sofrer e curar presentes tanto naquele que sofre quanto naquele que cura.

Este é o caminho da empatia e da não projeção.

O sofredor que procura o curador externo precisa constelar em si o curador interno.

O curador que é procurado pelo sofredor externo precisa constelar em si o sofredor interno.

Desta forma, o sofredor despertará a sua ação curativa e o curador entenderá muito mais aquele que sofre e como alguém solidário será mais eficiente do que alguém que é indiferente.

Há uma frase no meio junguiano que aqui demonstra toda a sua sabedoria: “o médico ferido cura melhor”.

Um psicólogo que se ver como o detentor do conhecimento e o sacerdote que ser ver como o escolhido de Deus polarizará a situação diante daqueles que os procurarem.

O abuso de poder ocorre quando a relação existente não é de igualdade.

Aquele que cura precisa ter aquele que sofre dentro de si.

Aquele que sofre precisa ter aquele que cura dentro de si.

Paulo Rogério da Motta

Sofrer e curar e a relação curador e sofredor