A sexualidade na psicologia junguiana


A sexualidade na psicologia junguiana vai além de gênero e identidade e oferece caminho para que a sexualidade seja vista em suas significações e não em estereótipos e padrões culturais.

Artigo baseado no capítulo: Gênero e Contrasexualidade: a contribuição de Jung e além, de Polly Young-Eisendrath, da obra: Manual de Cambridge para Estudos Junguianos.

Dois sexos, a dualidade, o sexo e o sexo oposto…

A cultura inserindo em cada lado fortes imagens de feminilidade e masculinidade e isto faz com que um sexo se identifique com as imagens disseminadas e as expresse conscientemente, ao mesmo tempo, desenvolve inconscientemente a presença do “outro” dentro de si.

O ser humano vive em duas realidades: a interpessoal e a intrapsíquica.

O gênero atuando no interpessoal e a identidade no intrapsíquico.

A psicanálise tradicional apresenta o modelo masculino como o que é referência e o feminino como o que é deficiente: a ausência do pênis.

À mulher vem sendo atribuído um papel menor desde os tempos do Jardim do Éden.

A psicologia de Jung é exceção!

A psicologia de Jung vê o masculino e feminino como pontes para as relações e o sagrado.

O feminino é contraparte do masculino.

A sexualidade na psicologia junguiana

A teoria junguiana da contrassexualidade com os arquétipos da Anima e do Animus abre espaço para que os sexos opostos sejam, na verdade, complemento.

Jung desenvolveu sua teoria da contrassexualidade não como a cisão de masculino e feminino, mas colocando-os como polaridades.

O masculino como Logos (objetivo, racional, independente) e o feminino como Eros (subjetivo, sensível, ligação).

A essência da teoria contrassexual de Jung é a de que a totalidade da psique somente é conseguida com o desenvolvimento de qualidades e aspectos do sexo oposto e a contraparte sexual é caminho para as relações sociais, a criatividade e para o inconsciente e o sagrado.

Jung declarou sua psicologia como sendo algo aberto e isto possibilita que as ideias de sua teoria contrassexual sejam ajustadas e sobre isso destaco o dito por Young-Eisendrath & Dawson de que vários autores apresentam propostas para esta atualização:

Diversas estratégias foram propostas para revisar a teoria de anima-animus de Jung:

(1) assumir que a identidade de gênero é flexível e que todos, homens e mulheres, têm tanto anima quanto animus, reconhecidos como feminilidade e masculinidade prototípica inconsciente;

(2) assumir que a identidade de gênero é flexível, mas que a biologia é o maior determinante das diferenças sexuais, e que anima e animus são arquétipos relacionados com os substratos biológicos da sexualidade, deixando os homens exclusivamente com anima e as mulheres com animus; e

(3) assumir que o gênero é flexível, mas que a divisão em dois sexos não é, e consequentemente manter a ideia de anima e animus como complexos inconscientes do “sexo oposto”, imagens afetivamente carregadas do(s) Outro(s) à medida que surgem no indivíduo, na família ou na sociedade.

Hoje a sexualidade precisa ser vista de forma flexível e que não seja sustentada em estereótipos e padrões culturais por parte do profissional de psicologia.

Não cabe ao profissional o julgamento de opção sexual ou o modo que a sexualidade é vivida por alguém, mas é seu papel buscar a compreensão das significações envolvidas e auxiliar para que os arquétipos da Anima e do Animus sejam pontes para a elevação psíquica.

Enfim, a teoria da contrassexualidade de Jung é rica porque permite tratar a sexualidade em suas significações e a busca da totalidade faz da sexualidade um caminho para a integração de opostos e contato com o Eu Real da psique que é o Self.

Paulo Rogério da Motta