Ser um homem feminino

Ser um homem feminino não é necessariamente algo ligado à sexualidade.

Ser um homem feminino é uma necessidade psíquica.

O feminino faz parte do homem.

Ser um homem feminino

Anima, a mulher no homem


O universo feminino se encontra também no homem sob o nome do arquétipo: Anima.

A anima é presença inevitável na psique masculina. Ser um homem feminino é algo inevitável ao mais contumaz machão!

Os homens carregam as características femininas de maneira inconsciente e, na maioria das vezes, reprimidas.

Marie-Louise Von Franz, na obra: O homem e seus símbolos, de Jung, diz sobre a anima:

Ser um homem feminino

Anima é a personificação de todas as tendências psicológicas femininas na psique do homem — os humores e sentimentos instáveis, as intuições proféticas, a receptividade ao irracional, a capacidade de amar, a sensibilidade à natureza e, por fim, mas nem por isso menos importante, o relacionamento com o inconsciente.

Não foi por mero acaso que antigamente utilizavam-se sacerdotisas (como Sibila, na Grécia) para sondar a vontade divina e estabelecer comunicação com os deuses.

Ser um homem feminino

Pelo que foi dito por Von Franz já se pode perceber que além de inevitável, a presença da anima na psique masculina é uma presença fundamental, afinal este arquétipo representa a ponte para o relacionamento entre a consciência e o inconsciente.

Este papel da anima de ser a ponte que permite a consciência do homem alcançar o inconsciente propicia a este arquétipo uma função de transcendência e não é à toa que Jung muitas vezes se referia à anima como sendo a própria alma.

Numa passagem de O Livro Vermelho há uma belíssima passagem em que Jung conversa com sua alma e o diálogo parece ser direcionado a uma mulher:

Ser um homem feminino

Dá-me tua mão, minha quase esquecida alma.

Que calor de alegria rever-te, minha alma muito tempo renegada!

A vida conduziu-me a ti.

Vamos agradecer à vida o fato de eu ter vivido, todas as horas felizes e tristes, toda alegria e todo sofrimento.

Minha alma, contigo deve continuar minha viagem.

Contigo quero caminhar e subir para minha solidão.

Ser um homem feminino

A anima além de ser uma ponte entre a consciência e o inconsciente, também é caminho para o homem transcender ao sagrado, bem como, a habilidade do homem se relacionar com a mulher real e concreta no mundo

Sobre isso, na obra já citada, Von Franz diz:

Ser um homem feminino

Todos estes aspectos da anima apresentam as mesmas tendências que observamos na sombra, isto é, podem ser projetados de maneira a parecerem qualidades pertencentes a uma determinada mulher.

É a presença da anima que faz um homem apaixonar-se subitamente, ao avistar pela primeira vez uma mulher, sentindo de imediato que é “ela”.

Neste caso, sente-se como se já a conhecesse a vida inteira, prendendo-se a ela de tal maneira que parece aos outros ter perdido o juízo.

Ser um homem feminino

A anima se manifesta-se em cada homem de maneira singular e de acordo com a sua psicologia individual.

Desalento, irritação, destrutividade, depressão, excitamento, bem-estar e sensibilidade são meios de manifestação da anima.

O arquétipo, por ser um campo de possibilidades, pode se expressar tanto como características positivas quanto negativas. São as polaridades arquetípicas.

Ser um homem feminino

Ser um homem feminino


O homem numa cultura patriarcal de forma consciente ou inconsciente deseja ser como um deus que tudo pode e ao seu lado ter uma mulher que nada questiona.

Essa atitude do homem em relação à mulher no mundo externo é também praticada com a mulher em seu mundo interno: a anima.

A cultura patriarcal e machista colocou equivocadamente a mulher como alguém que serve ao homem e pior, a mulher muitas vezes não é vista como alguém, é vista como “algo”.

A desvalorização da figura feminina resulta numa vulgarização da sua imagem.

A vulgarização da figura feminina faz com que o homem projete sua anima em ações como a violação do sagrado e a pornografia.

O homem imaturo que vê a mulher como objeto sexual busca nela a gratificação de seus desejos e dá à ela o papel da prostituta profana.

Sobre isso cito Von Franz ainda na mesma obra:

Ser um homem feminino

A manifestação mais frequente da anima é a que toma a forma de uma fantasia erótica.

Os homens podem ser levados a alimentar estas fantasias no cinema, nos shows de strip-tease, ou nas revistas e livros pornográficos.

É um aspecto primitivo e grosseiro da anima, mas que só se torna compulsivo quando o homem não cultiva suficientemente suas relações afetivas — quando a sua atitude para com a vida mantém-se infantil.

Ser um homem feminino

Esta atitude infantil para com a vida decorre da não aceitação de ser um homem feminino.

Somente ao respeitar a própria anima é que o homem poderá verdadeiramente respeitar a mulher no mundo externo. O respeito à mulher tem que partir de seu mundo interno.

Esse homem que desvaloriza a figura e a presença feminina em si possui o que pode ser chamado de Eros Imaturo.

Essa denominação de Eros Imaturo pode ser percebida no mito de Eros e Psiquê.

Este mito está aqui em Psicologia Profunda: O mito de Eros e Psiquê.

Sobre o tema Eros Imaturo você pode ler outro artigo em Psicologia Profunda: Eros e o marido machista.

Esse Eros imaturo que é movido pelo inconsciente é fácil de ser percebido não somente nos maridos, mas também nos pais que não querem ver suas filhinhas se tornarem mulheres.

A brincadeira popular em que o homem ao ver uma mulher que o atrai e diz que pode lhe oferecer casa, comida e dinheiro é um exemplo dessa postura imatura de Eros.

As mulheres e a anima precisam destronar o Eros imaturo.

E o homem precisa trazer maturidade ao seu Eros, não somente para seu crescimento psicológico, mas também porque as consequências dessa imaturidade podem banalizar a sua atuação na vida.

Jung em O Livro Vermelho diz:

Ser um homem feminino

Se não encontrar a alma, será acometido pelo horror do vazio, e o medo vai expulsá-lo com um chicote de várias tiras para uma aspiração desesperada e para uma cobiça cega das coisas ocas deste mundo.

Ser um homem feminino

O homem para crescer precisa da figura feminina, seja ela a mulher ao seu lado ou o aspecto feminino dentro de si, sua anima.

O feminino no homem atua como o guia de sua alma.

A figura feminina, seja como anima ou mulher, é caminho de desenvolvimento do homem em sua sexualidade e espiritualidade.

Von Franz, ainda na mesma obra, destaca as ricas possibilidades que se encontram no arquétipo da anima:

Ser um homem feminino

A anima é, por exemplo, responsável pela escolha da esposa certa.

Outra função sua igualmente relevante: quando o espírito lógico do homem se mostra incapaz de discernir os fatos escondidos em seu inconsciente, a anima ajuda-o a identificá-los.

Mais vital ainda é o papel que representa sintonizando a mente masculina com os seus valores interiores positivos, abrindo assim caminho a uma penetração interior mais profunda.

É como se um “rádio” interno fosse sintonizado em uma onda que excluísse as interferências inoportunas e captasse a voz do Grande Homem.

Estabelecendo esta recepção “radiofônica” interior, a anima assume um papel de guia, ou de mediador, entre o mundo interior e o self.

É assim que ela se revela […] iniciando-o em uma forma de vida mais elevada e espiritual.

Ser um homem feminino

Conclui-se assim que ser um homem feminino é encontrar a alma gêmea.

A anima é a alma gêmea que o homem tanto procura!

A anima é a princesa que mora num castelo no mundo interno da psique do homem.

A alma gêmea do homem não mora no mundo de fora, mora no mundo de dentro.

Ser um homem feminino permite ao homem encontrar a sua alma gêmea, conversar com a sagrada e Grande Mãe e ter em si a presença daquela companhia que ele sempre almejou.

Por fim, Jung em O Livro Vermelho:

Ser um homem feminino

Minha alma, onde estás?

Tu me escutas?

Eu falo e clamo a ti – estás aqui?

Eu voltei, estou novamente aqui – eu sacudi de meus pés o pó de todos os países e vim a ti, estou contigo; após muitos anos de longa peregrinação voltei novamente a ti.

Devo contar-te tudo o que vi, vivenciei, absorvi em mim?

Ou não queres ouvir nada de todo aquele turbilhão da vida e do mundo?

Mas uma coisa precisa saber: uma coisa eu aprendi: que a gente deve viver esta vida.

Paulo Rogério da Motta

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