Self e Deus

Self e Deus exercem o papel de Criador e são associados na psique humana, mas há que se compreender que o arquétipo não é sinônimo do deus teológico.

Self e Deus

Self e Deus


Criador e criação, este tema é frequente nos mitos de criação e nas religiões.

Edward C. Whitmont, em sua obra: A busca do símbolo: Conceitos básicos de Psicologia Analítica, conceitua que:

[…] o arquétipo do Self, o núcleo do complexo de identidade, vem a tornar-se real como um ego na casca pessoal desse complexo de identidade […].

Ou seja, o ego é um complexo originado a partir do arquétipo do Self, o centro organizador da psique.

Desta forma é possível conceber o Self como criador e o ego como criação ou criatura.

O Self exerce o papel de criador na psique e Maria Helena R. M. Guerra, na obra: O Livro Vermelho: O drama de amor de C. G. Jung, diz que esta atividade criadora se configura na capacidade:

[…] em produzir símbolos. Metáforas perfeitas para revelar, apontar o caminho, traduzir aquilo que cada um necessita em seu processo de individuação.

Esse papel criador e ordenador do Self o coloca naturalmente associado com a figura teológica de Deus.

A representação de Deus na psique é a Imago Dei.

Assim, Robert A. Johnson, em sua obra: A chave do reino interior diz que:

[…] é no inconsciente que encontramos nossa concepção individual de Deus e de nossas entidades divinas.

Salientando aqui que o autor falou em concepção individual, ou seja, concebida singular e psiquicamente pelo indivíduo.

Neste ponto, é importante ressaltar que não é papel e que também não é possível à psicologia a definição de Deus e, sobre isso, Whitmont, na obra citada, diz que Deus não pode ser reduzido a somente um arquétipo e explica que:

[…] embora possamos caracterizar ‘como’ vivenciamos aquilo que tradicionalmente porta o nome de Deus, não podemos jamais tentar dizer ‘o que’ ele é, aquilo que constitui a sua natureza.

Self e Deus

E isto faz a distinção do Deus teológico adorado nas religiões e da presença de Deus vivenciado psiquicamente pelo homem.

À psicologia cabe lidar com a representação psíquica que Deus tem dentro da psique de cada um considerando que, apesar da representação ser individual, a origem se deu através de um arquétipo, portanto, uma ideia coletiva e universal.

Assim, o papel do Deus teológico como o Criador é análogo ao papel do Self de criador na psique, mas não devem ser tidos como sinônimos, pois teologia e psicologia não são sinônimas.

Paulo Rogério da Motta