Rubaiyat III, de Omar Khayyām e o Livro Vermelho

Rubaiyat III é uma poesia mística de Omar Khayyām que parece anunciar o espírito da profundeza de O Livro Vermelho de Jung.

A vida acontece no tempo.

Mas o tempo é disfarce da eternidade.

Rubaiyat III, de Omar Khayyam e o Livro Vermelho

Prólogo


Ao se abrir a janela do inconsciente em que se pode ver a paisagem da vida tendo o tempo como apenas um lado da face da eternidade parece-nos que a poesia Rubaiyat III, de Omar Khayyām é o anúncio do espírito da profundeza de O Livro Vermelho de Jung.

Juntei a poesia de Omar Khayyām com excertos do Livro Vermelho de Jung.

Leia, veja e ouça, mas não racionalize.

Permita-se intuir se assim for.

Enleve-se e leia para seu Self, para Si Mesmo…

Rubaiyat III, de Omar Khayyam e o Livro Vermelho

Rubaiyat III, de Omar Khayyām


No céu, a mão esquerda da alvorada; eu sonho.

Na taberna, uma voz escuto na algazarra

– Despertai, meus pequenos, e enchei bem o copo

Antes que seque o vinho da vida em sua jarra.

Ah! Enche o copo! De que serve repetir

Que o tempo sob os nossos pés já vai fugindo?

O amanhã não nasceu e o ontem já morreu,

Porque me hei de importar, se o dia de hoje é lindo?

E ao côncavo invertido que se chama o céu,

Sob o qual rastejaram o vivo e o que morreu,

Não ergas tuas mãos, pedinte. Ele é impotente

No seu girar, tal qual o somos tu ou eu.

O dedo que se move escreve, e, tendo escrito,

Se vai. E toda a argúcia e piedade, entretanto,

Não o trarão de volta a mudar meia linha,

Nem as palavras podes apagar com o pranto.

E se o vinho que bebes, o lábio que oprimes

Findam nesse nada que a tudo dá sumiço,

Imagina, então, que és; não podes ser senão

O que hás de ser – nada! Não serás menos que isso.

Façamos o que é mais do que ainda há por fazer

Antes que também nós ao pó vamos enfim.

O pó vai para o pó, sob o pó vai jazer

Sem vinho, sem canções e sem cantor… sem fim.

É tudo um tabuleiro de noites e dias;

Os homens são peças, e o fado temerário

Com elas joga, e move, e toma, e dá o mate,

E uma a uma as recolhe, e vai guardar no armário.

Rubaiyat III, de Omar Khayyam e o Livro Vermelho

O caminho daquele que virá

Excertos de O Livro Vermelho, de Jung


Quando falo em espírito dessa época,

Preciso dizer:

Ninguém e nada pode justificar o que vos devo anunciar.

Justificação para mim é algo supérfluo,

Pois não tenho escolha,

Mas eu devo.

Eu aprendi que,

Além do espírito dessa época,

Ainda está em ação outro espírito,

Isto é,

Aquele que governa a profundeza de todo o presente.

O espírito dessa época gostaria de ouvir sobre lucros e valor.

Também eu pensava assim

E meu humano ainda pensa assim.

Mas aquele outro espírito me força a falar

Apesar disso para além da justificação,

De lucros e de sentido.

Cheio de vaidade humana

E cego pelo ousado espírito dessa época,

Procurei por muito tempo manter afastado de mim

Aquele outro espírito.

Mas não me dei conta

De que o espírito da profundeza possui,

Desde sempre e pelo futuro afora,

Maior poder do que o espírito dessa época

Que muda com as gerações.

[…]

O espírito dessa época

Tentou-me com as ideias

De que tudo isso pertencia

Ao lado sombrio da imagem de Deus.

[…]

É verdade, é verdade,

É a dimensão,

A embriaguez

E a feiura da loucura o que falo.

Mas o espírito da profundeza

Aproximou-se de mim e falou:

O que tu falas é,

O tamanho é,

A embriaguez é,

A trivialidade desprezível, doente, ignorante é,

Percorre todos os caminhos,

Mora em todas as casas

E rege o dia de toda a humanidade.

[…]

Depois disso,

Calou-se meu ser humano.

Mas ao meu ser espiritual

Aconteceu algo

Que preciso chamar de graça.

Rubaiyat III, de Omar Khayyam e o Livro Vermelho