Religião, Deus e Logoterapia

Considerações sobre religião, Deus e Logoterapia.

A religião se apresenta como caminho para Deus.

A Logoterapia vê nisso também um encontro consigo mesmo.

Religião, Deus e Logoterapia

A religiosidade


Desde que o pensamento humano foi registrado sempre houve o conceito de uma dimensão que dá sentido à existência e que ela só pode ser percebida direta e pessoalmente.

A dimensão que dá sentido à existência é aquela que transcende o material e o racional e leva o ser humano para esferas transcendentes.

Trata-se da dimensão espiritual e a religião é tida por muitos como o meio para se alcançar esta esfera.

As religiões se configuram em torno de um ou mais seres sobre-humanos personificados como um deus supremo ou deuses.

Admitindo que as grandes religiões se baseiem em experiências pessoais e diretas dos seus fundadores e, após, difundidas por seus discípulos configura-se que o contato com essa natureza sobre-humana, geralmente, é indireto.

Mas, ainda assim, acabam por ser um auxílio ao ser humano em sua busca do sentido da existência.

Tudo o que foi exposto até aqui possibilita que tenhamos um panorama de como o ser humano vivencia a sua religiosidade.

Religião, Deus e Logoterapia

Religião, Deus e Logoterapia


Viktor Frankl, o criador da Logoterapia, em sua obra: A presença ignorada de Deus, comenta que a religiosidade propicia que o indivíduo se dirija a Deus e que o diálogo íntimo com Deus é um diálogo que compreende também o contato consigo mesmo.

O criador da Logoterapia disserta que o homem que é teísta colocará Deus como um parceiro em seu diálogo e o homem ateísta considerará que essa conversa íntima é uma conversa também com o próprio eu.

Frankl, na obra citada, diz:

Porém, precisamos levar em consideração que não existe apenas uma fala interpessoal, mas também interpessoal, ou seja, o diálogo interno, o diálogo dentro de nós. […] Na prática, isso significa que sempre que estivermos totalmente a sós conosco, quando estivermos dialogando conosco na derradeira solidão e honestidade, é legítimo denominar o parceiro desses solilóquios de Deus.

A ação consciente de buscar Deus aponta que a consciência não apenas possibilita a transcendência como também se origina na própria transcendência ao se considerar o Deus como Criador.

Porém, psiquicamente, o que está além da consciência é a imago de Deus e ontologicamente Deus vem a ser a origem e aquele que tudo gerou.

Aqui já começamos a perceber o que cabe à psicologia e o que cabe à teologia.

A exemplificação de tal conceito pode ser feita considerando que psicologicamente a relação pai-filho é imago da relação pessoa-Deus sendo o pai biológico aquele que gerou fisicamente o homem e assim vem a ser aquele que simboliza o Deus que tudo gerou.

Isto indica que aquele que conversa com Deus, psicologicamente, conversa com o Deus configurado através de suas referências psíquicas.

Ao considerarmos esta questão no campo da psicoterapia, então, não cabe ao psicoterapeuta a discussão com seu cliente do deus teológico.

Ao psicoterapeuta cabe-lhe o papel de ser psicoterapeuta e não um sacerdote e há que se ter cuidado com isso, pois as intenções da psicoterapia e da religião não são as mesmas.

A primeira tem a sua autonomia na ciência e a segunda baseia-se na teologia.

Desta forma, não cabe ao psicoterapeuta o convencimento da existência ou não de Deus, pois a decisão de crer ou não crer deve ser decisão da própria pessoa.

Tal postura por parte do psicoterapeuta é que lhe proporcionará liberdade na investigação porque estará atuando de forma incondicional e não como um servo de suas crenças.

A psicoterapia procura a cura da alma, ao passo que a religião busca a salvação da alma.

Viktor E. Frankl comenta que, mesmo não tendo propostas psico higiênicas, a religião pode exercer tais efeitos como também pode ter efeitos colaterais em consequência de uma repressão inconsciente da fé ou religiosidade.

Logo religião e Deus podem ser temas que afetam a psique de seu cliente.

A Logoterapia por ser uma psicologia baseada no sentido existencial trabalha com a premissa de que o ser humano crê num sentido da vida e a crença de que a vida tem um sentido é que faz com que o ser humano aja na vida.

Ao psicoterapeuta cabe buscar a compreensão do fenômeno, independente de ter ou não a fé em Deus.

Por si só, o próprio questionamento se há sentido na vida já é algo que faz da pessoa alguém religioso, mesmo não seguindo nem crendo em alguma religião.

Pois o indivíduo ao fazer da vida mais do que um ato de sobrevivência, naturalmente, estará transcendendo o mundano e o meramente humano.

Religião, Deus e Logoterapia

Paulo Rogério da Motta