As quatro funções do mito, por Joseph Campbell


As quatro funções do mito de acordo com Joseph Campbell falam de consciência, ordem, cultura e compreensão da vida.

Os mitos provocam significações no viver humano.

As quatro funções do mito

Por Joseph Campbell

Artigo baseado na obra: Tu és isso: Transformando a metáfora religiosa, de Joseph Campbell.

O autor assim enuncia:


Primeira função

A primeira é a de reconciliar a consciência às precondições de sua própria existência – ou seja, de alinhar a consciência desperta ao mysterium  tremendum deste Universo, como ele é.

Para elucidar esta função o autor comenta que o Zoroastrismo apresentava a ideia de que o mundo era originariamente bom e que um princípio maligno o precipitou na queda.

A ideia de uma criação boa e sua queda é um dos fundamentos da mitologia tradicional.

Esta primeira função do mito é, então, a de despertar um deslumbramento e acaba por ser uma função religiosa por sua característica mística.

Tomar consciência da transcendência de tudo permite ao ser humano lidar com o mistério, perceber a magnitude da criação e, ao mesmo tempo, ter ciência de sua condição humana.

Esta função possibilita o reconhecimento da dimensão do mistério do ser.


Segunda função

A segunda função da mitologia tradicional é interpretativa, é apresentar uma imagem consistente de ordem do cosmos.

O ser humano é o único ser que procura sentida para a vida e sua existência.

A mitologia no tempo antigo servia para dar ordem a tudo e com isso os deuses eram agentes do grande mistério.

O caráter interpretativo desta função espelha-se na época em que é vivido o mito.

As metáforas no tempo antigo eram consideradas fatos literais e hoje os mesmos mitos permanecem vivos por expressarem mensagens simbólicas.

Este caráter interpretativo dos mitos os tornam atemporais e eternos.


Terceira função

A terceira função da mitologia tradicional é validar e apoiar uma ordem moral específica: aquela ordem da sociedade de onde surgiu a própria mitologia. Todas as mitologias chegam a nós no campo de determinada cultura e devem se endereçar a nós através da linguagem e dos símbolos dessa mesma cultura.

Esta função é essencial para aqueles que estudam os mitos.

Apesar da atemporalidade simbólica dos mitos o estudante dos mitos não pode esquecer que eles foram originados para atender determinada cultura e, portanto, configurados com os valores vigentes da época.

Em nossa sociedade podemos perceber que muita coisa que foi considerada imoral e ilegal um dia hoje não mais o são.

Os símbolos de uma mitologia devem ser compreendidos pelos símbolos que vigoravam em sua época originária.

Os mitos antigos serviram para auxiliar as pessoas em seu desenvolvimento e a lidar com os fatos de suas vidas.

A não contextualização dos mitos pode ocasionar problemas como preconceitos, radicalismos e alienação.

O autor comenta:

O perigo real existe quando as instituições sociais impõem às pessoas estruturas mitológicas que não se adaptam mais à sua experiência humana.

Os mitos servem para organizar e quando são equivocadamente interpretados e designados como fatos ou leis acabam por serem arma perigosa em mãos erradas.


Quarta função

A quarta função da mitologia tradicional é conduzir o indivíduo através dos vários estágios e crises da vida – ou seja, ajudar as pessoas a compreender o desenrolar da vida com integridade.

Esta função é de caráter bem individual e está intrinsecamente ligada à necessidade humana de atribuir sentido à sua existência.

Mesmo os que desconsideram qualquer validade dos mitos são movidos por eles, pois os mitos sobrevivem na psique humana como os arquétipos anunciados por Carl Gustav Jung.

Um exemplo é a jornada do herói que é vivida pelo catador de lixo, pelo presidente, pelo religioso, pelo ateu, pelo cientista…

A compreensão dos mitos faz com que o indivíduo encontre ressonância dos mitos nos eventos de sua vida.

Essa percepção mítica da vida permite que o ser humano perceba sua completude e ligação com o Universo.

Finalizo citando Joseph Campbell:

Essa completude significa que as pessoas passarão por eventos significativos, do nascimento à meia idade e até à morte, em harmonia primeiramente com elas próprias; em segundo lugar, com sua cultura; em terceiro lugar, com o Universo; e, por último, com aquele mysterium tremendum além de si mesmas e de todas as coisas.

Paulo Rogério da Motta


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