Psicologia e Filosofia


Psicologia e Filosofia lidam com a sabedoria e com aquele que ama a sabedoria: o ser humano.

Filosofia e Psicologia, caminhos que convergem e que antes eram um só!

Psicologia e Filosofia


Filosofia e Psicologia

Segundo Netto (1974), a expressão “Psicologia” tem origem nas palavras gregas “psyché” que pode ser traduzida como “alma ou espírito” e “logos” que pode ser entendida como “compreensão, entendimento, concepção”.

Etimologicamente então podemos compreender a Psicologia como o “entendimento da alma”.

De acordo com o mesmo autor a expressão “Psicologia” tenha sido, provavelmente, usada pela primeira vez no século XVI, porém tornou-se conhecida somente no século XVIII, quando Christian Wolff a utilizou em “Psychologia empírica” e a “Psychologia rationalis”.

Filosofia e Psicologia são caminhos de questionamentos.

E, segundo Netto (1974), pensadores gregos como Sócrates, Platão e Aristóteles incluíram em seus sistemas filosóficos suas preocupações com a alma, de modo que tais preocupações se conciliavam com o entendimento etimológico da Psicologia, denotando nestes pensadores gregos uma atitude de indagação psicológica.

Filosofia e Psicologia

Trajeto histórico da Filosofia à Psicologia

Psicologia e Filosofia possuem uma história em comum.

Assim como as demais ciências, a Psicologia tem como mãe a Filosofia.

Erthal (2004, p.1) cita que no período inicial da filosofia grega do século VI a.C., a filosofia e a religião se encontravam unidas e que “os sábios da Escola de Mileto, por exemplo, não tinham a preocupação de fazer distinção entre elas”.

A autora cita que os filósofos desta época queriam descobrir a constituição das coisas e a natureza essencial destas, e a isto deram o nome de “phisis”, afirmando a autora ser este o objetivo de todos os místicos.

Erthal (2004) diz que no final do século V, Heráclito (escola Jonica) e Parmênides (escola Eleata) tinham divergências:

  • Heráclito via o mundo como um eterno “vir a ser” e que as transformações no mundo eram consequências da interação cíclica e dinâmica dos opostos
  • A escola eleática de Parmênides mencionava um Princípio Divino acima de todas as coisas.

Antes da escola eleática a concepção era a de um Princípio identificado como uma unidade no universo e, a partir desta, o Princípio passou a ser visto como um Deus pessoal e soberano.

Erthal (2004, p.2) também cita que “a separação entre espírito e matéria se originou daí, gerando o dualismo que marca toda a filosofia ocidental”.

Netto (1974) diz que Sócrates (século V a.C.), considerado o patrono da Filosofia, que foi difundido através da obra platônica, utilizava um método muito próximo da área científica da Psicologia que é o processo de introspecção, onde em minuciosos diálogos com seu interlocutor procurava despertar neste uma ideia ou definição de um objeto.

Sobre Platão, Netto (1974, p.12) diz que este filósofo “falava da alma como imortal em sentido moral” e recomendou em seu diálogo “Fédon” que a vida deveria ser vista como uma preparação para a alma se evadir do corpo e da contingência física.

O autor também ressalta que nas teorias de Platão a alma contemplava os ideais de justiça e do bem, porém, ao corporificar-se, perdia ela a noção daquilo que contemplou.

É também citado que em um mito, Platão mostra a sua preocupação com a alma quando conta a história de um cocheiro que representava a alma racional que conduzia dois cavalos:

  • Um deles era corajoso e tendia para o alto
  • O o outro e era tido como a alma passional, representando as paixões nobres e a cólera

O cavalo que tendia para baixo era tida como a alma apetitativa, simbolizando as paixões ignóbeis, sugerindo o autor que o filósofo ali já criara um esquema de Psicologia.

Sobre Aristóteles, discípulo de Platão, Netto (1974, p.12) diz que este filósofo “tratou longamente a alma”, mas para ele “a alma e corpo formam um todo orgânico”.

O autor diz que Aristóteles enunciava que “a matéria é o corpo e a forma é a alma”, ressaltando que a alma não vive separada do corpo e que o conjunto de alma e corpo é que constitui o indivíduo.

O autor também falando sobre Aristóteles cita que o filósofo acreditava numa “alma vegetativa” nas plantas e animais que comandava os atos de nutrição e reprodução, bem como de uma “alma sensitiva” que sofria as impressões dadas pelo mundo exterior, e também uma “alma racional” que percebia a essência universal das coisas e que “dava sentido às impressões recebidas pela alma sensitiva”. 

Netto (1974, p.13) diz que “se observarmos com cuidado a teoria da alma em Aristóteles”, poderemos perceber algo: “o entendimento das coisas se liga às sensações”, citando o autor que na filosofia de Aristóteles existia “a noção de uma Psicologia bastante próxima aos significados científicos contemporâneos”.


Vídeo: Filosofia e Psicologia


Segundo Erthal (2004), René Descartes, um dos principais representantes deste período da Filosofia, dividia a natureza em dois reinos: mente e matéria.

Através dessa divisão cartesiana a matéria foi tratada como morta.

Segundo Netto (1974), Descartes postulava que as partículas subiam até as cavidades do cérebro e então atingiam a glândula pineal e ali era a sede da “alma”.

Descartes dizia que as sensações eram provocadas pelos “espíritos animais” ao atingirem a glândula pineal e as irradiações desta pelo corpo até os músculos determinavam as ações da alma e também as paixões.

Netto (1974, p.15) cita que “não é necessária uma observação profunda, para que se note como Descartes esteve próximo de uma Psicologia independente da Filosofia”.

A observação do autor se baseia na importância dada por Descartes pelos processos fisiológicos e a ligação deles com os estímulos exteriores e principalmente por, nas ideias de Descartes, haver a fundamentação de um mecanismo psicológico.

Segundo Novaes (2004), a psicologia tornou-se uma ciência em fins do Século XIX, cujo objeto principal é o comportamento humano.

A psicologia passou a não ser a ciência da “alma”, como o termo sugere, em que pese estar estudando aspectos que envolvem a fronteira entre o concreto e o subjetivo.

As escolas de psicologia variavam seu objeto de estudo, mas desconsiderando a existência do Espírito.

Historicamente e etimologicamente a psicologia deve ser considerada a ciência da alma, mas a psicologia passou a ser somente a ciência do comportamento humano.

Surgiu então Freud e a Psicanálise.

A psicanálise é uma escola da psicologia baseada nos princípios de Sigmund Freud, cujos conceitos iniciais principais eram: inconsciente, ego, id e superego.

Nela, o fator motivacional e gerador de angústias, neuroses e psicoses se encontra na libido ou sexualidade.

A psicanálise determinou um novo rumo à psicologia, então restrita ao comportamento de um organismo, observado de forma rigorosamente matemática.

A psicologia era principalmente fisiologia antes da psicanálise.

Foram fundamentais ao desenvolvimento da psicanálise as ideias da catarse, oriundas de Aristóteles, Santo Agostinho, Breuer e outros; da livre associação e da conscientização dos conteúdos inconscientes.

Infelizmente sua prospecção só vai até a infância.

O Século XIX tinha uma proposição também hedonista (os seres humanos eram motivados para obter o prazer e evitar a dor).

Isso influenciou a psicanálise, bem como o evolucionismo darwiniano.


Vídeo: As três feridas narcísicas


A partir de Freud e da descoberta do inconsciente a psicologia começou a trilhar um caminho distinto da filosofia, embora sem serem incompatíveis. A complementariedade é possível e benéfica.

Filosofia e Psicologia são ricos instrumentos para uma e para outra.

A psique sendo considerado algo além do fisiológico permite que a origem histórica e etimológica da psicologia do estudo da alma vá retornando ao seu caminho.

Hoje temos a Psicologia Analítica de Jung que tem como campos de estudo a mitologia, a alquimia, a gnose e com estreita afinidade com a espiritualidade.

A espiritualidade também faz parte de escolas psicológicas como a Psicologia Transpessoal, a Psicossíntese, a Logoterapia entre outras.

A psicologia começa seu caminho de retorno como na jornada do herói.

Por ser tão vasto o campo de alcance da Psicologia, é possível encontrar profissionais que a ela se dedicam atuando em escolas, clínicas psiquiátricas, hospitais, empresas, locais de lazer e de repouso, consultórios de psicoterapia, etc..

Segundo Novaes, tais campos de atuação não apresentam uniformidade quanto aos paradigmas psicológicos envolvidos. Devido a tais fatores e à própria natureza da psiquê, a psicologia é uma ciência que ainda não finalizou seu processo de consolidação.

Paulo Rogério da Motta


Referências

ANGERAMI-CAMON , Valdemar Augusto. De espiritualidade, de ateísmo e de psicoterapia. In: ANGERAMI-CAMON , Valdemar Augusto. Espiritualidade e Prática Clínica. São Paulo:Thomson, 2004. pág. 215 a 262

BOFF, Leonardo. Espiritualidade: Um caminho de transformação – Coleção Auto-estima. São Paulo. Editora Sextante, 2006. 64 pg. 

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. A luz da sabedoria na psicoterapia. In: ANGERAMI-CAMON , Valdemar Augusto. Espiritualidade e Prática Clínica. São Paulo:Thomson, 2004. pág. 1 a 37

NETTO, Porphírio Figueira de Aguiar. Introdução à Psicologia. Editora Livraria Nobel, São Paulo: 1974. pág. 9 e 19.

NOVAES, Adenáuer Marcos Ferraz de. Filosofia e Espiritualidade: uma abordagem psicológica. Fundação Lar Harmonia. Salvador: 2004. 240p.

WILBER, Ken. A União da Alma e dos Sentidos. Editora Pensamento -Cultrix, São Paulo: 2001, pág. 67 a 69.