O ritmo da vida: nascimento, morte e ressurreição

Nascimento, morte e ressurreição são ciclos da vida, inclusive e especialmente, da vida humana.

Ritmo da vida - nascimento, morte e ressurreição

Este ciclo se repete em tudo e você o está vivendo agora!

O ritmo da vida - Nascimento, morte e ressurreição

O ritmo da vida


Há um esquema de funcionamento da natureza humana baseado num roteiro de: nascimento, morte e ressurreição.

O ser humano reproduz este esquema em sua vida e relações e este esquema passa a ditar o ritmo de sua vida e funciona como o motor de suas motivações, conflitos e ansiedades.

Este mesmo esquema é também presente na psicologia, psicanálise, filosofia, mitologia, religiões e até na própria natureza, além de ser presente também na natureza humana.

A percepção deste esquema pode funcionar como um processo de harmonização do psiquismo humano e fazer do ser humano o protagonista de sua própria história ao assumir num movimento deliberado o papel da ressurreição dentro deste esquema.

Ritmo da vida - nascimento, morte e ressurreição

Nascimento, morte e ressurreição


A vida acontece em ciclos.

Os ciclos ditam o ritmo da vida.

Nascimento, morte e ressurreição é o esquema escolhido para o que foi criado e este é o ciclo que a natureza segue:

  • Nascimento: verão
  • Morte: outono e inverno
  • Ressurreição: primavera

E assim como diz o segundo princípio hermético: “O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima” (O Caibalion), o microcosmo ser humano repete em seus ciclos o ciclo macrocósmico da natureza.

Naturalmente o ser humano vai repetindo este ciclo em sua trajetória de vida, pois este ritmo da vida é o mesmo que lhe deu a vida.

Na trajetória biológica que seguiu para se tornar humano seguiu este mesmo ciclo:

  • Nascimento: espermatozoide
  • Morte: a fecundação do óvulo
  • Ressurreição: transformação em feto

Antes mesmo de nascer para o mundo, ou seja, ainda na vida intrauterina o ser humano segue o ritmo destinado à vida:

  • Nascimento: feto
  • Morte: parto
  • Ressurreição: criança

Após ter nascido para a vida o ser humano constrói sua jornada repetindo o mesmo ciclo e este pode ser visto na sua escolha profissional:

  • Nascimento: a pessoa em si com a aspiração de tornar-se algo
  • Morte: Conclusão de sua formação, formatura
  • Ressurreição: profissional habilitado

O ciclo da vida dita também a vida amorosa:

  • Nascimento: a pessoa descobre outra pessoa (o indivíduo é um)
  • Morte: casamento (descobre o outro e morre a vida vivida para um)
  • Ressurreição: a pessoa comprometida com outra (ressurge como dois como se fossem um)

O mesmo ciclo aparece também em livros sagrados e religiões.

No velho testamento do principal livro religioso do ocidente, a bíblia, em Gênesis, tem:

  • Nascimento: Deus criou homem e mulher
  • Morte: a expulsão do paraíso
  • Ressurreição: a constante busca do ser humano de retornar ao paraíso

O mesmo ciclo se repete no novo testamento do mesmo livro:

  • Nascimento: o de Jesus (natal)
  • Morte: a crucificação (sexta-feira santa)
  • Ressurreição: acontece três dias após sua morte (páscoa)

Algo interessante a se dizer é que a data do natal coincide com o início do verão no hemisfério norte, que é a estação do nascimento, e as religiões pagãs, aquelas que adoram a natureza, celebram rituais de fecundidade.

A psicologia segue também este esquema da natureza em seu processo psicoterapêutico:

  • Nascimento: nasce o ser em conflito
  • Morte: o desejo de transformação e a transformação
  • Ressurreição: o ser transformado

A Psicanálise traz em sua teoria este mesmo esquema:

  • Nascimento: a criança é em seu conceito o “tudo” (onisciente e onipotente)
  • Morte: quando descobre o “outro”
  • Ressurreição: a criança inserida no mundo e o início da formação do aparelho psíquico

O mesmo esquema reaparece na formulação do aparelho psíquico:

  • Nascimento: registros no sistema mnêmico. São registradas as primeiras impressões, ou seja, quando nascem na pessoa
  • Morte: a censura (superego). Aqui a ideia morre quando reprimida ou transforma-se em conteúdo do pré-consciente (salientando que sempre que cito o processo da morte, ela não deve ser vista como fim, e sim etapa de transformação, como atividade)
  • Ressurreição: quando reprimida ressurge nos sonhos e quando não é reprimida ressurge como conteúdo à disposição do consciente

A psicologia retrata este esquema que dita o ritmo da vida no desenvolvimento humano:

  • Nascimento: criança
  • Morte: puberdade e transformações
  • Ressurreição: adolescente

O ciclo do desenvolvimento humano prossegue:

  • Nascimento: adolescente
  • Morte: surgimento do pensamento abstrato, independência e transformações psíquicas
  • Ressurreição: adulto

E como se trata de um ciclo ele novamente se repete no percurso do desenvolvimento humano:

  • Nascimento: adulto
  • Morte: declínio fisiológico, mudanças de perspectivas
  • Ressurreição: idoso

E mesmo nos capítulos finais da história do desenvolvimento humano a ressurreição reaparece suscitando alturas ainda mais altas para o ser humano prosseguir:

  • Nascimento: idoso
  • Morte: a proximidade da morte a faz mais presente no cotidiano
  • Ressurreição: aqui surge como um processo de espiritualização que acontece nas pessoas mais idosas, em geral, como uma busca para uma ressurreição no após vida

O esquema acontece também quando a pessoa troca de emprego, disputa um jogo qualquer (ao ganhar o jogador ressurge como o vencedor, o campeão), nas guerras (o país procura ao vencer a guerra para ressurgir renovado e mais forte e de acordo com o que acha que é o melhor para si), e etc., etc., etc….

Ritmo da vida - nascimento, morte e ressurreição

Ressignificação é ressurreição


O homem ao não seguir este esquema de: nascimento, morte e ressurreição, inerente a ele, acaba por viver situações de conflito, ansiedade e desesperança.

Este esquema de funcionamento no ser humano é dinâmico e está  e estará presente em todas as situações que o indivíduo viver e quando ele interrompe ou distorce esse roteiro surge a incongruência em sua vida.

A obstrução do ritmo da vida emperra a fluidez da vida e até de sua energia vital.

O indivíduo ao não conseguir a “ressurreição simbólica” acaba por se frustrar e a atuar de forma incongruente em sua vida e relações.

Angústia, depressão e vazio existencial são consequências da ressurreição que não aconteceu.

A ressignificação se faz necessária.

Ressignificar é a ressurreição no psiquismo do indivíduo.

Ritmo da vida - nascimento, morte e ressurreição

A ressignificação é um processo que contribui para que o ser humano possa se situar na vida e ver como ele se encontra dentro do esquema de: nascimento, morte e ressurreição.

A ressignificação é o processo que auxilia o ser humano na compreensão de seus conflitos, ansiedades, necessidades e motivações e então atender à sua natureza humana que necessita seguir o ritmo da vida.

A ressignificação é um caminho de harmonização psíquica ao auxiliar o indivíduo a se situar de forma consciente dentro deste esquema.

O ser humano é antes de tudo um ser singular com aspirações, necessidades e potenciais particulares e o cerceamento de sua natureza é fator de conflito psíquico.

O papel do psicólogo é auxiliar a pessoa para que o processo siga seu fluxo, pois havendo entrave em algum ponto do processo, isto será causa de conflito.

As próprias psicopatologias podem ser vistas dentro do esquema: nascimento, morte e ressurreição.

Os sintomas podem ser encarados como a situação em que está havendo o travamento do fluxo desse esquema.

Exemplos:

  • Depressão: o entrave está na etapa “morte”, pois falta energia para a ressurreição.
  • Transtorno bipolar: A oscilação acontece devido aos travamentos alternados de nascimento (entusiasmo) e depressão (morte).
  • Esquizofrenia: o problema está na dissociação entre “nascimento” (identidade da pessoa) e ressurreição (outras personalidades), a psique transita de um para outro.

Tudo o que dita a natureza e a trajetória humana pode ser visto dentro do esquema: natureza, morte e ressurreição.

Este esquema é presente na mitologia e na psique humana como a jornada do herói.

Joseph Campbell cita que todo ser humano traz em si o “mito do herói”.

Campbell traça a trajetória do herói como: nascimento, morte e retorno.

A ressurreição é vista mitologicamente como o retorno.

É importante ressaltar a ideia de retorno, pois ressurreição não é a mesma coisa que renascimento.

Na ressurreição o indivíduo com sua identidade obtida no nascimento persiste e o que acontece é a transformação do indivíduo.

A não persistência da identidade pode resultar em patologia, situação quando a identidade obtida se fragmenta, como acontece na esquizofrenia.

 Por fim, vale dizer que a motivação humana provém dessa constante busca da ressurreição.

Quando a ressurreição deixa de existir para o ser humano ele não encontra mais o sentido, se perde, entra em conflito e se torna destrutivo.

Quando busca substituir a ressurreição por situações que, em sua equivocada opinião, lhe traga vida, o ser humano traz estagnação no ritmo de sua vida e entra em círculos viciosos de busca constante de prazer. Ele associa prazer com vida.

A morte traz a dor, mas a morte faz parte da vida e a dor nos traz aprendizado.

E a vida é muito mais que busca de prazer!

A vida precisa da morte e a morte ao precisar da vida traz a ressurreição.

Paulo Rogério da Motta


Vídeo: De volta para casa