O arquétipo da música

Será que existe o arquétipo da música?

A música sempre esteve presente na história humana e músicas são tocadas em nossa cabeça vindas do “nada”.

O arquétipo da música

A música


O ser humano é um ser musical.

O ser humano não apenas ouve música, ele a sente também. Ele é capaz de perceber tons, intervalos, timbres, notas, melodia…

O músico constrói a música antes em sua mente para somente depois expressá-la com o som, ou seja, a música se origina no mundo interno e depois é expressa no mundo externo.

A música além de ser constituída por notas musicais é também um mosaico de acentos emocionais.

A música modifica o humor e agita ou apazigua a mente.

O ser humano não ouve música apenas com seus ouvidos. Todo o corpo reage à música e transcendendo é possível dizer que a música toca também a alma humana.

O arquétipo da música

O arquétipo


Para refletirmos sobre a existência ou não do arquétipo da música iremos antes nos debruçar exclusivamente sobre o arquétipo.

Há um artigo sobre os arquétipos aqui em Psicologia Profunda: Os arquétipos na Psicologia Analítica.

Arquétipo, na Psicologia Analítica, significa a forma imaterial à qual os fenômenos psíquicos tendem a se moldar.

Os arquétipos foram originados através das impressões recorrentes de vivências da raça humana em incontáveis vezes no transcorrer da sua evolução e história.

São tendências estruturantes do pensamento, percepção e atuação do indivíduo na vida […]. Os arquétipos exercem “influência” na percepção e conduta do ser humano.

São ideias ou formas de pensamento que criam imagens ou visões que são as representações arquetípicas, havendo assim um determinante de predisposição interna para perceber o mundo de certa maneira e de orientar-se no mundo movido por estas forças arquetípicas.

O arquétipo da música

O arquétipo da música


Jung em Cartas 1946-1955 disse:

É certo que a música, bem como o drama tem a ver com o inconsciente coletivo […]. De certa forma, a música expressa o movimento dos sentimentos (ou valores emocionais) que acompanham os processos inconscientes. O que acontece no inconsciente coletivo é por sua natureza arquetípico e os arquétipos têm sempre uma qualidade numinosa que se manifesta na acentuação do emocional. A música expressa em sons o que as fantasias e visões exprimem em imagens visuais.

Para aprofundarmos o dito por Jung vamos utilizar também a obra de Oliver Sacks: “Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro”:

No entanto, tenho a impressão de que a maioria das nossas imagens mentais musicais não é voluntariamente comandada ou evocada; elas parecem surgir de forma espontânea. Às vezes brotam de súbito na mente, outras vezes podem estar lá tocando de mansinho, sem nos darmos conta. Embora as imagens mentais musicais voluntárias possam não ser de fácil acesso para pessoas relativamente não-musicais, praticamente toda pessoa tem imagens mentais involuntárias.

O dito por Sacks é uma representação da atuação de um arquétipo: imagens mentais involuntárias e presentes em todos os seres humanos.

Vamos prosseguir relacionando a música com o arquétipo.

Arquétipo, na Psicologia Analítica, significa a forma imaterial à qual os fenômenos psíquicos tendem a se moldar.

O ser humano reage à música e podemos constatar isso com mais um excerto da obra de Sacks:

A música, para a maioria de nós, é uma parte significativa e em geral agradável da vida. Não falo só da música externa, a que ouvimos com nossos ouvidos, mas também da música interna, a que toca na nossa cabeça.

Essa música interna imaterial causa na psique o mesmo efeito da musica externa.

A música promove fenômenos psíquicos moldando emoções e sentimentos e despertando lembranças e pensamentos.

Os arquétipos foram originados através das impressões recorrentes de vivências da raça humana em incontáveis vezes no transcorrer da sua evolução e história.

O ser humano ouviu e fez música em recorrentes vezes em sua evolução e história.

A música é instrumento para adorar os deuses a incontáveis gerações.

O ser humano utiliza a música para celebrar, expressar suas ideias e sentimentos e para narrar a sua saga de ser humano.

O ser humano é um ser musical.

A música preenche sua vida desde a canção de ninar aos que recém nasceram até o réquiem. A música embala o sonho do que nasceu e do que morreu.

São tendências estruturantes do pensamento, percepção e atuação do indivíduo na vida […]. Os arquétipos exercem “influência” na percepção e conduta do ser humano.

Como já disse, o ser humano reage à música

A música provoca emoções no ser humano e vale lembrar que os complexos na psicologia de Jung são conteúdos arquetípicos carregados emocionalmente.

A música faz o ser humano rir, chorar, empolgar-se, acalmar-se e um mosaico de emoções podem ser ativados pela influência da música. Todas estas emoções suscitadas pela música são conteúdos psíquicos carregados de emoção.

A música atrai emoções e este é o modus operandi do complexo psíquico e vale ressaltar que o núcleo de todo complexo é um arquétipo.

Se a música atrai emoções ela atua como uma força arquetípica.

São ideias ou formas de pensamento que criam imagens ou visões que são as representações arquetípicas, havendo assim um determinante de predisposição interna para perceber o mundo de certa maneira e de orientar-se no mundo movido por estas forças arquetípicas.

Na antiga Grécia se acreditava que a música tinha sua origem nos deuses.

Um exemplo de representação arquetípica da música é o deus Apolo, o deus das artes e, consequentemente da música.

As Musas utilizavam a música para encantar até os próprios deuses.

Na Grécia antiga os músicos eram tidos como descendentes de Apolo e das Musas.

Orfeu empreendeu uma jornada ao mundo subterrâneo de Hades e lá comoveu com sua música Hades e Perséfone.

Hermes é considerado o criador da lira, um instrumento de cordas.

A música era presente nas celebrações ao deus Dionísio e nos mistérios de Eleusis.

Representações arquetípicas são inúmeras e nas mais variadas mitologias.

A música faz parte da história humana e faz com que o ser humano perceba o mundo de forma diferente.

O arquétipo da música

A força do arquétipo da música


Mais um excerto da citada obra de Saks:

Desde meados dos anos 1990, estudos realizados por Robert Zatorre e seus colegas usando avançadas técnicas de neuroimagem demonstraram que, de fato, imaginar música pode ativar o córtex auditivo quase com a mesma intensidade da ativação causada por ouvir música.

A música influencia o ser humano não somente de forma psíquica, mas de forma somática também.

Ainda da obra de Sacks:

Na década de 1960 foram feitos alguns experimentos inconclusivos sobre o que os pesquisadores denominaram de “efeito White Christmas”. Na época, a versão de Bing Crosby para essa música era conhecida por praticamente todo mundo. Alguns indivíduos “ouviam” essa música quando o volume era diminuído até quase zero, ou mesmo quando os experimentadores anunciavam que iriam tocar a canção mas não o faziam. Recentemente, William Kelley e seus colegas de Dartmouth obtiveram a confirmação fisiológica desse “preenchimento” por imagens mentais musicais involuntárias.

A música é capaz também de levar o ser humano ao êxtase e provocar nele experiências perceptuais e espirituais.

A utilização de mantras (sílabas, palavras ou versos pronunciadas musicalmente) evoca e provoca estados contemplativos.

A música é utilizada como meio de ligação do ser humano com o sagrado entre cristão, hindus, budistas e inúmeras religiões.

O arquétipo da música, assim, atua de forma psicofísica e espiritual.

A música toca o ser humano no corpo e na alma.

O arquétipo da música

A presença inevitável do arquétipo da música


Sacks diz:

Estamos em terreno muito mais rico, muito mais misterioso quando consideramos as melodias ou fragmentos musicais que não ouvimos ou nos quais não pensamos talvez há décadas e que, de súbito, nos tocam a mente sem nenhuma razão perceptível. Eles não decorrem de exposição recente nem de repetição, e é quase impossível evitarmos perguntar: “Mas por que essa melodia neste momento? O que a pôs na minha mente?”.

Todos já tiveram a experiência daquela música que não se consegue tirar da cabeça.

A música que insistentemente é tocada em nossa mente é um complexo ativado cujo núcleo é o arquétipo da música.

O modo de vida do ser humano coloca a música no seu dia a dia.

Ouvimos música o tempo todo e quando a música não vem do mundo externo o nosso próprio mundo interno a faz presente.

O arquétipo da música carrega significados, símbolos e interpretações que o fazem uma presença inevitável no viver humano.

A música é abstrata e está associada com as emoções humanas e toca o ser humano tanto subjetiva quanto objetivamente.

O ser humano ama a música e o arquétipo da música é uma presença muito bem-vinda na psique humana e isto faz com que os deuses da música sejam deuses queridos e louvados pelo ser humano em qualquer tempo e lugar.

Vamos então sentir a presença e força do arquétipo da música com o talento de Lindsey Stirling.


Vídeo: Lindsey Stirling – Crystallize

Aristóteles: “A música é celeste, de natureza divina e de tal beleza que encanta a alma e a eleva acima da sua condição.”.


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