Mito e razão, caminhos para a verdade

Mito e razão para alguns são o mesmo que mentira e verdade.

Mas o mito não mente e a razão se engana.

Para estudar mitologia é preciso desenvolver o pensamento simbólico!

Mito e razão

Mito e razão


A validade e valor do mito são contestados quando o mito é tido como uma narração de “fatos” e não de “ideias”, ou seja, o mito passa a denotar e não a conotar.

Mito e razão nos levam aos campos de suas origens: a mitologia e a filosofia.

Na Grécia antiga, os primeiros filósofos passaram a criticar a mitologia de Homero e Hesíodo porque os deuses tinham muita semelhança com os homens e eles diziam que talvez os deuses não passassem de frutos da imaginação do homem.

Xenófanes (565-470) foi o primeiro a rejeitar o caráter religioso e metafísico dos mitos.

A rejeição do valor do mito foi ratificada no ocidente com o judeu-cristianismo que declarou como falso tudo aquilo que não constasse em seus dois evangelhos.

Os filósofos gregos da época antiga queriam encontrar explicações naturais para tudo e sem recorrer à tradição dos mitos.

Houve a transformação do modo de pensar: o pensamento atrelado ao mito passou a ser substituído pelo pensamento construído sobre a experiência e a razão.

Mito e razão passaram a ser vistos como incompatíveis.

A Filosofia surgia como o conhecimento racional da realidade natural e cultural, das coisas e dos seres humanos.

A Filosofia passava a afirmar que a verdade é racional.

A expressão “razão” origina-se de duas fontes: da palavra latina ratio que vem do verbo reor e que quer dizer: contar, reunir, juntar, medir, calcular; e da palavra grega logos que vem do verbo legein que também quer dizer: contar, reunir, juntar calcular.

Dessa forma, segundo Marilena Chauí, “razão” significa “pensar e falar ordenadamente, com medida e proporção, com clareza e de modo compreensível para outros”.

Assim, razão pode ser entendida como a capacidade intelectual para pensar e expressar-se correta e claramente e dizer as coisas como elas realmente são.

Mito e razão

Os princípios da Filosofia


Para aprofundarmos o tema de mito e razão é interessante sabermos os princípios que regem a filosofia.

Para a Filosofia, a razão opera seguindo certos princípios que são os seguintes:


 Princípio da identidade

Qualquer coisa só pode ser conhecida e pensada se for percebida e conservada a sua identidade.

Exemplo: o triângulo foi definido como uma figura de três lados e três ângulos internos então nenhuma outra figura poderá ser chamada de triângulo a não ser esta.


Princípio da não contradição

Afirma que é impossível uma coisa ser e não ser ao mesmo tempo e na mesma relação, ou seja, não é possível se afirmar e negar a mesma coisa ao mesmo tempo.

Exemplo: se estamos diante de uma árvore aquela árvore será árvore ao mesmo tempo, ela não poderá ser uma árvore e um cachorro ao mesmo tempo.

A relação neste princípio comporta a transformação das coisas, por exemplo: uma criança é uma criança ao mesmo tempo, porém com o passar do tempo aquela criança se tornará um adulto e então será um adulto que é um adulto ao mesmo tempo.


Princípio do terceiro excluído

Enuncia que não há uma terceira possibilidade, ou seja, entre várias escolhas possíveis, só há realmente duas escolhas: ou certa ou errada.


Princípio da razão suficiente

Afirma que tudo o que existe e tudo o que acontece tem uma causa ou motivo para existir e para acontecer e que tal causa ou motivo pode ser conhecida pela nossa razão.

Neste princípio não é descartado o acaso e os fatos acidentais, mas cabe à razão procurar as causas do acaso e dos fatos acidentais.


A Filosofia coloca que existem duas modalidades de atividade racional:

  • Intuitiva (ou razão intuitiva), em que a intuição faz com que tenhamos uma visão direta e imediata do objeto do conhecimento e sem necessidade de provas ou demonstrações para saber o que conhece.
  • Raciocínio (ou razão discursiva), em que se chega ao objeto do conhecimento passando por etapas sucessivas de conhecimento para se chegar ao seu conceito ou definição.

Assim, podemos entender a razão como a faculdade humana de estabelecer relações lógicas para conhecer e compreender qualquer coisa.

Porém tudo o que foi enunciado até aqui serve exclusivamente para alocar toda e qualquer verdade dentro dos limites do ego.

Mito e razão

O pensamento simbólico


Jung concebe o ego apenas como o centro da consciência e não da totalidade psíquica, logo, racionalmente falando, qualquer verdade que esteja no domínio do inconsciente teria que ser considerada uma inverdade por não poder ser racionalmente definida ou conceituada, porém, “existem verdades inconscientes”.

Mito e razão, ambos, podem ser caminhos da verdade!

A linguagem do inconsciente são os símbolos e os mitos são verdades simbólicas.

Aqui se faz necessária uma ressalva, pois somente a concepção de “verdade” já seria suficiente para se escrever inúmeros tratados de filosofia.

A expressão aqui utilizada se refere à verdade possível captada pelo ego e à verdade simbólica empiricamente constatada.

Depois de feitas as devidas considerações, retomemos o tema.

Para desconstruir o materialismo intelectual, inimigo mortal para o estudo da mitologia, há que se desenvolver o pensamento simbólico.

No pensamento simbólico há uma identidade que é secreta e, assim, faz companhia à identidade aparente; em que a contradição é presente pela multiplicidade de possibilidades que existem no símbolo que pode ser mais de uma coisa ao mesmo tempo.

Ao lidar com a natureza simbólica tratada nos mitos se constata que certo e errado são apenas avaliações feitas por um pequeno pedaço da mente humana chamada consciência.

Desta forma, a razão é capaz de ver a verdade aparente, a verdade que pode ser vista pela consciência através de seu sujeito: o ego, mas existem verdades que estão além da razão e da capacidade do ego.

Contos de fadas deixam lições de sabedoria nas crianças, no terreno de Morfeu são feitas descobertas através dos sonhos, gênios intuem criativamente, artistas se inspiram como que agraciados por musas e todos esses saberes não são racionais; e a verdade de suas existências se prova pela constatação empírica.

É através dos mitos que o ego consegue vislumbrar coisas que transcendem seus muros construídos com tijolos de razão.