Metáfora e religião


Metáfora e religião estão intrinsecamente ligadas.

Os textos sagrados são repletos de metáforas e uns consideram a metáfora como mentira e outros como história literal.

Artigo baseado na obra: Tu és isso: Transformando a metáfora religiosa, de Joseph Campbell.

Metáfora e religião

Joseph Campbell, na obra citada, comenta após narrar uma discussão com um radialista:

Ele me fez refletir que metade da população mundial acha que as metáforas de suas tradições religiosas, por exemplo, são fatos.

E a outra metade afirma que não são fatos, de forma alguma.

O resultado é que temos indivíduos que se consideram fiéis porque aceitam as metáforas como fatos, e outros que se julgam ateus porque acham que as metáforas religiosas são mentiras.

Os livros sagrados quando interpretados como fatos históricos apresentam narrações impossíveis de se acreditar aos que têm uma mente mais analítica e até mesmo para os que não a possuem a saída para lidar com tais fatos é a fé.

A fé é caminho para se acreditar no impossível.

Crentes mais ortodoxos tem verdadeiro pavor da negação de serem fatos históricos as narrações de seus livros sagrados. Creem que inviabilizaria o valor da sua religião.

A necessidade temerosa da existência de fatos históricos religiosos acaba por empobrecer a realidade metafórica espiritual.

A comprovação da existência dos fatos históricos religiosos levam pessoas a procurarem pedaços de arcas e de cruz sem compreender a realidade metafórica espiritual que é a busca de iluminação.

Antigas religiões hoje são mitologia e, assim como a metáfora, os mitos são erroneamente vistos como sinônimos de mentira.

Campbell na mesma obra explica:

Não, mito não é uma mentira.

Uma mitologia completa é uma organização de imagens e narrativas simbólicas, metafóricas das possibilidades de experiência humana e da realização de determinada cultura em certo momento.

Metáfora deriva do grego “meta” que significa passagem, transferência, transição de um lugar para outro; e “phorein” que significa mover, levar, carregar.

Assim, o papel da metáfora é o de transportar algo de um lugar para outro, é o de transpor fronteiras.

A religião, por sua vez, vem da expressão “religare” que significa religar e seu papel é o de ligar o humano ao sagrado.

Metáfora e religião nunca deveriam ser tratadas como dicotomia!

Tanto a metáfora quanto a religião tem o papel de transcendência e se a religião busca ligar o humano ao sagrado o único caminho é o da transcendência não atrelada somente ao passado.

Histórias são fatos temporais mesmo que sejam fatos religiosos.

Verdades espirituais são eternas porque transcendem tempo e espaço.

A história é constituída de narrações passadas e os símbolos de significados atemporais.

A história que é narrada metaforicamente é a expressão de algo presente e eterno em seu significado.

A metáfora não precisa ser comprovada como o fato histórico, precisa apenas ser compreendida e quando se compreende não é preciso a fé obrigatória.

A metáfora de um nascimento virginal é mais rica do que o ineditismo de um corpo feminino que não fez sexo.

A metáfora de uma terra prometida é mais rica do que a guerra pela posse de um espaço geográfico.

Mais rico o fato religioso que expressa uma verdade espiritual do que um fato histórico.

Paulo Rogério da Motta