Matrística e a cultura patriarcal

A matrística é um tema relacionado com a cultura, com o sagrado, com a vida e o ser humano.

A perda da energia feminina é algo que afeta a mulher, o homem e o mundo .

A exclusão do sagrado feminino fez da mulher sinônimo de mundano e profano.

Resgatar o feminino também no homem é essencial.

A matrística de Maturana pode ser essencial para isso!

Matrística e a cultura patriarcal

Patriarcado


Patriarcado: é uma palavra derivada do grego pater ou pai e archein ou reinar, governar.

Humberto R. Maturana, em sua obra: Amar e brincar: Fundamentos esquecidos do humano do patriarcado à democracia, fala sobre a cultura patriarcal:

[…] Esta se caracteriza pelas coordenações de ações e emoções que fazem de nossa vida cotidiana um modo de coexistência que valoriza a guerra, a competição, a luta, as hierarquias, a autoridade, o poder, a procriação, o crescimento, a apropriação de recursos e a justificação racional do controle e da dominação dos outros por meio da apropriação da verdade.

Estas são características do princípio masculino que na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung representam as características do arquétipo Animus.

Jung postulou uma estrutura inconsciente que representa a parte sexual oposta de cada indivíduo. Ele denomina tal estrutura de anima no homem e animus na mulher.

O princípio masculino baseia-se na competição e isto faz com que uma cultura fundamentada em princípios masculinos valorize a demonstração de força e o jogo de poder.

Maturana, sempre na mesma obra, fala sobre isso:

Em nossa cultura patriarcal, estamos sempre prontos a tratar os desacordos como disputas ou lutas. Vemos os argumentos como armas, e descrevemos uma relação harmônica como pacífica, ou seja, como uma ausência de guerra como se a guerra fosse a atividade humana mais fundamental.

As consequências da cultura patriarcal que vivemos atualmente é responsável pelo modo de vida que temos em que são presentes a corrupção, o desprezo pela natureza, a violência, o materialismo e tantas outras consequências derivadas de uma cultura movida predominantemente por princípios masculinos.

Maturana diz:

Assim, em nossa cultura patriarcal falamos de lutar contra a pobreza e o abuso, quando queremos corrigir o que chamamos de injustiças sociais; ou de combater a contaminação, quando falamos de limpar o meio ambiente; ou de enfrentar a agressão da natureza, quando nos encontramos diante de um fenômeno natural que constitui para nós um desastre; enfim, vivemos como se todos os nossos atos requeressem o uso da força, e como se cada ocasião para agir fosse um desafio.

Em uma cultura baseada na lei do mais forte e no jogo de poder não há espaço para a sensibilidade e o diálogo.

Matrística e a cultura patriarcal

Matrística


Patriarcado e Matrística: essas duas culturas constituem dois modos diferentes de viver as relações humanas.

Primeiro esclarecimento a ser feito é o de que matriarcado não é sinônimo de matrística.

Maturana fala sobre isso:

O termo “matrístico” é usado […] com o propósito de conotar uma situação cultural na qual a mulher tem uma presença mística, que implica a coerência sistêmica acolhedora e liberadora do maternal fora do autoritário e do hierárquico. A palavra “matrístico”, portanto, é o contrário de “matriarcal”, que significa o mesmo que o termo “patriarcal”, numa cultura na qual as mulheres têm o papel dominante.

Matriarcado: é uma palavra derivada do grego mater ou mãe e archein ou reinar, governar.

Na matrística a ideia fundamental é a de que homens e mulheres podem participar de um modo de vida não hierárquico e centrado na cooperação e sem controle de autoridade.

Maturana:

Em outras palavras […], a expressão “matrística” é aqui usada intencionalmente, para designar uma cultura na qual homens e mulheres podem participar de um modo de vida centrado em uma cooperação não-hierárquica. Tal ocorre precisamente porque a figura feminina representa a consciência não-hierárquica do mundo natural a que nós, seres humanos, pertencemos, numa relação de participação e confiança, e não de controle e autoridade, e na qual a vida cotidiana é vivida numa coerência não-hierárquica com todos os seres vivos […].

Na matrística não há a predominância de poder como acontece no patriarcado e no matriarcado.

Para que a matrística ocupe o lugar do patriarcado é necessário o resgate do princípio feminino.

Este princípio feminino já fez parte da cultura humana como diz Maturana:

Assim, acredito que devemos deduzir, com base nos restos arqueológicos […], que os povos que viviam na Europa entre sete e cinco mil anos antes de Cristo eram agricultores e coletores. […]

[…] e que naquilo que podemos supor que eram lugares cerimoniais místicos (de culto), depositavam principalmente figuras femininas […].

O princípio feminino era possível e vivido porque o feminino era considerado sagrado também.

A cultura patriarcal promoveu a ideia de que o masculino é sagrado e o feminino é profano.

Algumas ideias religiosas construídas pela cultura patriarcal:

  • Deus é somente pai
  • Na trindade não há a figura feminina
  • Quando Deus tem filho ele é um homem
  • Mulheres precisam cobrir seus corpos que são caminhos do pecado
  • Mulheres não podem ter altas funções religiosas
  • Mulheres não podem frequentar certos locais sagrados

Em tempos em que o feminino é também sagrado o contexto é totalmente diferente, como expressa Maturana:

O respeito mútuo, não a negação suspensa da tolerância ou da competição oculta, deve ter sido o seu modo cotidiano de coexistência, nas múltiplas tarefas envolvidas na vida da comunidade. A vida numa rede harmônica de relações, como a que evoca a noção da deusa […].

[…] a deusa constituía, como foi dito, uma abstração da harmonia sistêmica do viver, a vida não pode ter estado centrada na justificação racional das ações que implicam a apropriação da verdade.

O feminino durante a maior parte da história humana foi tido como sagrado e a partir da instauração da cultura patriarcal a sua sacralidade foi tirada e, como consequência, também os princípios femininos foram retirados da cultura.

Por isso hoje a expressão utilizada é de “resgate do sagrado feminino” e não o de instauração do sagrado feminino.

Maturana:

Tudo era visível ante o olhar inocente e espontâneo daqueles que viviam, como algo constante e natural, na contínua dinâmica de transformação dos ciclos de nascimento e morte.

É essencial esse resgate do sagrado feminino e o consequente retorno dos princípios femininos à nossa cultura.

Não se trata somente da obtenção de mais qualidade de vida, mas sim, da existência da vida humana.

A cultura atual faz a sociedade humana cavar um precipício para se jogar.

Por isso, o que necessitamos hoje não é de patriarcado nem de matriarcado.

A nossa necessidade é a matrística!

Matrística e a cultura patriatcal
Características originais das culturas

Paulo Rogério da Motta