Inconsciente e moral religiosa na prática clínica


Inconsciente e moral religiosa são fontes de conflitos psíquicos.

No inconsciente há a sombra.

Na religião regras a serem seguidas.

Na clínica não há expiação de pecados.

Inconsciente e moral religiosa na prática clínica

Inconsciente e moral


Amar a si mesmo implica num amor pleno, em que se ama o ser inteiro, porém, a sombra faz parte desta totalidade.

Paradoxos passam a existir:

  • “Não amando a sombra não é possível se amar plenamente”
  • “Amando a sombra entro em conflito com minha moralidade”

O que fazer? Repressão ou desregramento?

As duas opções apresentadas, repressão ou desregramento, propõem a fuga do conflito moral: se reprimo não o vejo e se desregro não me incomodo com ele.

Inconsciente e moral se polarizam.

A clínica psicológica, porém, vê no conflito um caminho de amadurecimento psicológico e de intensificação do caráter do indivíduo.

James Hillman utiliza uma imagem rica para tal quadro: a moralidade é a bigorna e o conflito é o martelo e cabe ao indivíduo martelar a resposta em seu coração.

Os conflitos são desejados numa psicoterapia.

Inconsciente e moral religiosa na prática clínica

Inconsciente e moral religiosa


As religiões que propõem métodos para expiação dos conflitos morais ou pautadas na ideia de que o amor elimina toda sombra impedem que o indivíduo confronte o seu conflito com o tranquilizante espiritual de extinção da culpa.

Tal tranquilizante é apenas um placebo.

Algo como varrer a sujeira para debaixo do tapete ou, em termos psicológicos, varrer para o porão escuro da psique: o inconsciente.

Toda a criação foi pautada em dualidades: claro e escuro, quente e frio, dia e noite, masculino e feminino, etc..

São as dualidades que possibilitam o ser humano fazer escolhas.

A moralidade religiosa que se baseia na remoção da fonte dos conflitos morais impossibilita que o ser humano vivencie sua cruz de opostos.

Uma mensagem do Cristo que não foi devidamente captada é a de que ele promovia ensinamentos através de parábolas justamente para que a reflexão fosse exercida.

Ou seja, que os conflitos fossem vividos psiquicamente e a moralidade se originasse dessa vivência psíquica.

A mensagem do Cristo não era de repressão nem de desregramento, a proposta era a de um terceiro caminho: a internalização ou a vivência do símbolo.

O desenvolvimento psíquico baseia-se na conscientização.

Desta forma, a consciência nunca se desenvolve sem sofrer um pouco, e é a alma que sofre e que até precisa de certa dose de sofrimento para se desenvolver.

Jung não encarava o sofrimento simplesmente como um sintoma a ser curado, pois o fato de sofrermos é a essência do processo de nos tornarmos um ser completo.

O esforço do médico, bem como a busca do paciente, perseguem esse “homem total” oculto e ainda não manifesto, que é também o homem mais amplo e futuro. No entanto, o caminho correto que leva à totalidade é infelizmente feito de desvios e extravios do destino. (Carl Gustav Jung; Psicologia e alquimia – § 11).

A conscientização, desta forma, é um processo que tem por origem e fim a alma.

As experiências de vida e os tons emocionais de cada situação vivida pelo ser humano constituem o quadro que sua alma pinta em vida.

A totalidade, mais do que a plena felicidade e a perfeição, é o caminho da alma do ser humano e a plenitude do seu ser é conquistada em meio às dores do viver.

Inconsciente e moral religiosa na prática clínica

Paulo Rogério da Motta


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