Impulso evolutivo e psicoespiritualidade

O impulso evolutivo é uma força arquetípica.

Espiritual e psíquico delineando a trajetória do ser humano que sente necessidade de ser melhor e transcender.

Impulso evolutivo e psicoespiritualidade

Duas tendências


A evolução espiritual não caminho junto do desenvolvimento biológico.

Os passos para o crescimento interior não são impulsionados pelo tempo.

A analogia com uma fruta que amadurece com o tempo não serve para aquele que busca a evolução espiritual.

O ser humano carrega em si duas tendências:

  • Impulso evolutivo
  • Impulso adaptativo

Angela Maria La Sala Batà, em sua obra: Maturidade psicológica, disse:

 Todo impulso para o crescimento (tanto biológico quanto psicológico) provoca um conflito entre estas duas tendências opostas, e esta é a razão porque todo o amadurecimento é precedido por uma crise.

O conflito decorre das polaridades existentes nestas duas tendências do ser humano.

O impulso evolutivo busca o movimento, a ascensão, o caminhar. Por isso é dito que aquele que busca a evolução espiritual trilha uma senda. O buscador é um caminhante, um peregrino.

O impulso adaptativo, por sua vez, busca o equilíbrio, a adaptação. Algo em movimento é difícil de ser equilibrado. O equilíbrio é obtido de maneira mais eficaz com a estagnação.

Prossegue Batà, na mesma obra, dizendo:

O homem tem necessidade de ambas as forças, a do equilíbrio e a do progresso, mas deve saber usá-las de maneira sábia e esclarecida, alternando-as ritmicamente; mas isto é muito difícil, porque estas forças agem quase sempre de maneira inconsciente, e o conflito entre elas acontece abaixo dos níveis da consciência.

Impulso evolutivo e psicoespiritualidade

Impulso evolutivo e conscientização


Assim, o crescimento interior é associado ao grau de conscientização adquirido pelo indivíduo.

Trilhar a senda espiritual é uma caminhada feita com passos de consciência.

Não é o tempo nem o desenvolvimento biológico que farão alguém se espiritualizar. O que espiritualiza alguém é a conscientização.

A prática dita espiritual que aliena alguém, ou seja, nubla a sua consciência, como, por exemplo, o fanatismo religioso, é contraproducente para aquele que trilha a senda espiritual.

A religião pode ser algo que faz parte da senda daquele que busca a evolução espiritual, mas a religião precisa ser solo para o caminho e nunca ser um precipício para que a consciência se jogue.

O processo de conscientização é um caminho da relação do homem tanto com o mundo que há fora de si como com o mundo que há dentro de si.

Jung dizia que toda experiência de vida humana é também uma experiência psíquica, pois a psique é o alfa e o ômega. Tudo acontece a partir da psique e tudo tem como destino a psique.

E partindo do exposto é possível perceber que o processo de conscientização consiste no contato do ser humano com o que está fora dele e também, na construção do que está fora dele em algo psíquico dentro dele.

Assim a representação interna é que dá significado a tudo com que o homem tem contato.

Impulso evolutivo e psicoespiritualidade

Impulso evolutivo, a psicologia e o psicólogo


Como vimos, o processo de conscientização também consiste no contato com o que está dentro do ser humano, isto é, ter contato com seus conteúdos inconscientes. Conhecer as figuras arquetípicas que residem em si.

Quando falamos do impulso evolutivo e do impulso adaptativo falamos em tendências do ser humano, portanto, estávamos falando de arquétipos e os arquétipos residem no inconsciente coletivo e se relacionam com a consciência através das imagens ou figuras arquetípicas.

A alma pode se relacionar com a consciência como Anima, a sombra como o Demônio, Deus como um radiante Sol e é assim que os personagens na senda espiritual se apresentam em nossa psique.

Acabei de colocar numa mesma frase senda espiritual e psique, isto é, a espiritualidade e o psíquico dentro de um mesmo tema e isto é o que denomino de psicoespiritualidade.

Se a psique é o alfa e o ômega de toda experiência humana, o trilhar a senda espiritual tem sua origem e destino na psique humana. Na psique do ser humano está o início e o fim de sua senda espiritual.

Como vimos, os arquétipos são tendências, portanto, podem ser ativados ou não. Quando ativados se manifestam na vida e se tornam forças reais e não somente forças latentes.

O impulso evolutivo é assim uma força latente que pode ou não ser ativada.

Sobre isso Batà, na mesma obra, diz que:

O impulso evolutivo, porém, é aquele que sempre acaba vencendo e é de tal modo forte e irresistível que o homem, mais cedo ou mais tarde, deve segui-lo, mesmo porque a oposição a tal impulso traz consigo consequências negativas e danos psíquicos de não pouca importância, que o indivíduo, para seu bem-estar e sua serenidade, deve necessariamente reparar.

O impulso adaptativo faz o homem se estagnar em conforto material, em repetir fórmulas conhecidas para obtenção de prazer e em buscar estabilidade através da posse de coisas do mundo material.

Porém este esquema adaptativo de vida torna a vida supérflua, vazia e superficial. Torna o ser humano tudo isso também!

Quando tudo isso não é percebido então vira uma atuação automática de vida, ou seja, atua inconscientemente na vida e o ser humano então leva uma existência vazia que se consolidará em algum momento da vida naquele sentimento que creio todo mundo já experimentou alguma vez na vida: o sentimento do “vazio existencial”.

Esse vazio existencial faz com que muitas pessoas procurem o psicólogo.

Alice Bailey, em sua obra: Tratado sobre os sete raios, alerta para os perigos da negligência da natureza espiritual do ser humano:

A dívida de gratidão que o mundo deve aos experimentadores psicólogos é inestimável mas, a não ser que se introduza uma ideia-chave no campo do seu pensamento, desmoronar-se-á pelo seu próprio peso e criará (como já está a acontecer) problemas complexos e doenças mentais, como resultado directo dos seus próprios métodos.

O psicólogo, em especial, deve mais do que nunca ser um “conhecedor da alma humana”.

O psicólogo não pode desvalorizar a busca espiritual daquele que o procura buscando ajuda.

Aquele que busca o psicólogo para simples adaptação ao mundo social que seja auxiliado a lidar com seu impulso adaptativo.

Mas aquele que busca o psicólogo porque almeja evolução espiritual que seja auxiliado a lidar com seu impulso evolutivo então.

Não cabe ao profissional ser guru, mas cabe ser psicólogo e seu ofício é lidar com a alma humana.

A vontade de evolução espiritual não se apresenta sempre literalmente como espiritualidade! Ela pode se apresentar como questões e ou conflitos religiosos, éticos (desejo de ser melhor), humanitários (querer auxiliar) e até amorosos porque o amor é uma poderosa força que faz o ser humano transcender e muitas vezes esta transcendência leva alguém a tal altura que faz com que ele toque o campo espiritual.

Impulso evolutivo e psicoespiritualidade

Impulso evolutivo e maturidade psicológica


Aquele que busca somente adaptação ao mundo social é alguém que vive seu impulso evolutivo de maneira imatura, pois desloca o crescimento interior para o crescimento exterior apenas.

O conceito de maturidade é simples de entender se for claro que no mundo externo “se está” e o mundo interno é “quem se é”.

Aquele que acredita “que é” de acordo com o que mostra ou tem no mundo externo é alguém com imaturidade psicológica.

Maturidade psicológica é associada com o conhecendo de si mesmo e isto significa ser conhecedor do seu mundo interno.

Batà citando Teilhard de Chardin disse:

[…] Todavia, podemos afirmar que um dos sinais fundamentais que distinguem o homem maduro é que ele não é fixo, não é estático, mas continua a crescer, a desenvolver-se, a “caminhar para a frente”, qualquer que seja a sua idade.

Batà citando agora Harry Overstrett também disse que:

[…] De fato, uma pessoa madura não é uma pessoa que chegou a um certo grau de perfeição e se estabilizou. Ela é, preferivelmente, uma pessoa em amadurecimento, uma pessoa cujas ligações com a vida se tornam sempre cada vez mais fortes e mais ricas.

Portanto, não se pode definir a maturidade como um ponto fixo, não é algo estático, fruto do impulso adaptativo.

A maturidade é, antes de tudo, uma atitude interior, uma disposição de ânimo e de mente, seja para consigo mesmo seja para com a vida, é uma fermentação interior no sentido do desenvolvimento sempre cada vez mais amplo e abrangente, ou seja, é fruto do impulso evolutivo.

O fruto do impulso evolutivo torna o homem capaz de expressar as suas faculdades mais elevadas, de centralizar-se primeiramente no seu eu mais íntimo, de descentralizar-se do que é externo a si e, finalmente, de centralizar-se em Deus que na psique se apresenta como o Self.

Esta é a essência da busca de Si Mesmo daquele que caminha sob as estrelas procurando transcendê-las…

Paulo Rogério da Motta


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