O espírito para Jung e a Psicologia Analítica

O espírito foi uma expressão utilizada por Jung em suas obras.

Mas o que seria o espírito para Jung?

E como o espírito pode ser visto na Psicologia Analítica?

O espírito para Jung e a Psicologia Analítica

O espírito para Jung e a Psicologia Analítica


Sobre o espírito, Jung em: A natureza da psique (1984, § 621) faz uma analogia para melhor compreensão:

[…] da mesma forma como o ‘princípio vital’ é a quintessência da natureza da vida do corpo, assim também o ‘espírito’ é a quintessência da natureza da alma […].

Desta forma, Jung já diferencia alma de espírito, apontando que o espírito é o mais alto grau da essência da alma, denotando, assim, um caminho de evolução para alma.

Para aprofundarmos nosso entendimento vamos recorrer à Helena P. Blavatsky, criadora da Teosofia e um dos principais nomes na área da espiritualidade.

Blavatsky, em seu Glossário teosófico, diz que o espírito não deve ser confundido com a alma e explica:

A matéria é o veículo para manifestação da Alma neste plano de existência e a Alma é o veículo, num plano mais elevado, para a manifestação do Espírito […]. 

É possível perceber, então, que a alma exerce um papel de intermediação entre matéria e espírito para a autora e que é sintonizado com o que disse Jung.

Jung, em Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo (1982, § 262) diz: “devo confessar que ignoro o que seja simplesmente o espírito, devo falar de fatores psíquicos.”.

Esta afirmação de Jung é importante para ressaltar que as considerações sobre o espírito provenientes da psicologia junguiana não podem ser, em nenhum momento, comparadas às definições de espírito da teosofia ou de qualquer texto religioso.

Portanto, a expressão espírito, quando for considerada no campo da psicologia analítica deve, necessariamente, ser vista em seu aspecto psíquico.

Esclarecido tal ponto, sob a ótica psicológica, Marie-Louise Von Franz, em sua obra: Adivinhação e sincronicidade: A psicologia da probabilidade significativa, diz:

Uma das principais maneiras de usarmos a palavra espírito é quando aludimos ao aspecto estimulante e revigorador do inconsciente. […]

Portanto, Jung define espírito, do ângulo psicológico, como o aspecto dinâmico do inconsciente.

[…] O inconsciente tem esse aspecto de matriz, de ventre materno, mas também um aspecto dinâmico, de movimento, age espontaneamente, por livre vontade – por exemplo, compõe sonhos.

[…] Esta é uma manifestação dinâmica do inconsciente, em que ele faz energicamente algo por sua própria vontade, movimenta-se e cria por sua própria conta, e foi isso o que Jung definiu como espírito.

O espírito para Jung e a Psicologia Analítica

Espírito, consciência superior e símbolo


Pelo que vimos até aqui, o espírito, sob o enfoque psicológico, é o aspecto que propicia o dinamismo do inconsciente.

Isto é, o espírito é que origina a fluidez psíquica, o que indica que o espírito transcende a psique, pois atua sobre a psique, por isso, Jung diz que pode falar apenas de fatores psíquicos que são as decorrências do dinamismo psíquico.

Desta forma, à psicologia não cabe a definição de espírito, pois esta se encontra fora da sua esfera. 

Jung, também em: A natureza da psique, sobre o espírito (1984, § 643), ainda diz:

[…] quando a ideia ou princípio em questão é imprevisível, quando suas intenções são obscuras quanto à origem e aos seus objetivos, mas assim mesmo se impõem, o espírito é necessariamente sentido como um ser independente, como uma espécie de consciência superior, sua natureza superior e inescrutável e já não pode ser expressa em conceitos da razão humana.

Em tais circunstâncias, nossa capacidade de expressão lança mão de outros recursos: cria um símbolo.

Este ponto é de extrema importância, pois indica que o espírito, consequentemente, é algo que não poderá ser racionalizado e ser acomodado nas delimitações do ego, surgindo aqui um ponto complexo a ser analisado, pois Jung em Fundamentos de psicologia analítica (1983, § 18)diz:

Uma consideração importante sobre a consciência é que não pode haver elemento consciente que não tenha o ego como ponto de referência.

Assim, o que não se relacionar com o ego não atingirá a consciência.

A partir desse dado, podemos definir a consciência como a relação dos fatos psíquicos com o ego.

Percebe-se, então, que Jung ao falar de uma espécie de consciência de natureza superior referia-se a uma consciência inescrutável ao ego, ou seja, assim como o espírito transcende as limitações do ego, também uma consciência superior o transcende.

A via possível de contato do ego com algo que o transcenda, desta forma, são os símbolos que, como disse Jung, é o recurso psíquico possível.

Sobre o símbolo, Jung (A natureza da psique, 1984, § 644) comenta:

[…] por símbolo não entendo uma alegoria ou um mero sinal, mas uma imagem que descreve da melhor maneira possível a natureza do espírito obscuramente pressentida.

No campo da psicologia analítica, portanto, o que deverá ser considerado é a representação psíquica do espírito e ter em vista sempre que os temas do espírito ou a espiritualidade é algo pressentido na psique humana e que não caberá na racionalização delimitadora do ego.

A complexidade da ideia de uma consciência superior não acessível ao ego, mas que com ele se relaciona conduz à necessidade de se falar do arquétipo Self.

O Self representa a psique como um todo e também como o seu centro, o princípio ordenador criativo da personalidade.

A ideia de totalidade do Self é importante para se analisar qualquer tema da psicologia analítica, pois tudo o que for psíquico estará contido no Self e ele será o princípio ordenador e criativo.

Considerando a natureza do Self tudo o que for sua criação será objeto na psique.

Retomando o ponto de o espírito ser sentido como uma espécie de consciência superior, Jung, ainda em: A natureza da psique (1984, § 645) complementa dizendo que:

[…] poderíamos denominar esta consciência hipotética simplesmente de consciência ‘mais ampla’ […]”.

Destaco a existência dessa consciência mais ampla como hipótese, mas, ao se considerar tal possibilidade temos também que considerar que o que é psíquico, necessariamente, está contido no Self e ele será seu princípio ordenador.

Sendo assim, hipoteticamente, a consciência mais ampla do espírito só atuaria no ser humano se relacionada com o Self, ou seja, tal ocorrência faria com que espiritual e psíquico se relacionassem.

Analisando a expressão espírito na teosofia, citando novamente Blavatsky em seu Glossário Teosófico:

A palavra Espírito (grifo da autora), diz F. Hartmann, é usada indistintamente, o que pode dar origem a grande confusão.

Em seu verdadeiro significado, Espírito é uma unidade, um poder vivo universal, a origem de toda a vida […]

Espírito significa vontade consciente e, sob este aspecto, todas as coisas são expressão de seu próprio espírito, que reside em seu interior; porém o espírito sem organização nem substância não tem individualidade e é como um sopro.

Só depois de organizado o espírito como ser substancial dentro de uma forma viva é que pode existir como ser individual.

Ao se colocar o espírito como vontade consciente origina-se uma associação com a hipótese de Jung de o espírito ser sentido psiquicamente como uma espécie de consciência superior ou mais ampla.

Há que se ressaltar que aqui a referência é de uma consciência transcendente ao ego, pois, partindo-se da premissa de que o espírito é vontade consciente, ele será “sentido” pela psique.

Oportuno comentar que a psique ao intermediar o espírito e a relação do ser humano com o mundo em que vive acaba por ter para a psicologia analítica o significado de alma, pois segundo Jung (A natureza da psique, 1984, § 283), diz:

[…] a alma é o único fenômeno imediato deste mundo percebido por nós e por isto mesmo a condição indispensável de toda experiência em relação ao mundo.

Assim, o espírito obtém individualidade ao se organizar e ao se relacionar com a vida através da alma ou psique, justamente o propósito do Self.

Paulo Rogério da Motta