Conto Persa: O marido teimoso e a esposa chata


O conto persa, simbolicamente, mostra a trajetória de um ego masculino e de um ego feminino que lidam imaturamente com sua Anima e Animus.

Conto Persa - O marido teimoso e a esposa chata

Conto Persa: O marido teimoso e a esposa chata


Há muito tempo atrás, havia uma fazenda onde viviam um marido e sua esposa. 

Toda manha, o marido acordava, vestia-se, comia e ia se sentar num banco de madeira a olhar a paisagem, os passantes e os acontecimentos.

Enquanto isso, sua esposa levantava, ia buscar água, cortava a lenha, acendia o fogo, cozinhava, varria a casa, e lavava as roupas.

Como pode se imaginar os dois brigavam constantemente.

– Por que você fica aí sentado como um idiota sem fazer nada o dia inteiro? – Perguntava a esposa. 

Ao que o marido respondia:

– Estou meditando, tendo pensamentos profundos sobre a vida!

– Tão profundos como água num pires! – Retorquia ela. 

Os dois viviam assim cutucar o outro.

Um dia o bezerro escapou do estábulo.

Enquanto o marido, sentado no banco, nem se mexia, a mulher que corria  de um lado para o outro com suas tarefas, gritou para ele:

– Por que ao menos você não cuida desse bezerro e lhe dá água? Esse é um trabalho de homem e você poderia ao menos fazer isso!

O marido respondeu:

– Eu herdei um rebanho de ovelhas de meu pai. Um pastor toma conta delas, o que nós dá queijo, leite e lã. Isso é suficiente para vivermos. E já é bastante trabalho para mim também. E além do mais, os profetas diziam que quando um homem fala, a mulher deve obedecer. E eu lhe digo que é você quem deve tomar conta do novilho.

– Uma mulher deve obedecer, mas quando é um homem de verdade que fala, – exclamava ela, – e não um burro como você.

Conto Persa - O marido teimoso e a esposa chata

E assim eles discutiram durante toda aquela manhã e tarde, até que, ambos tiveram a mesma ideia.

Viraram um para o outro e disseram:

– Já sei. O primeiro que falar vai tomar conta do bezerro a partir de então!

Assentiram com a cabeça e foram para cama sem se falar.

 Na manhã seguinte, o marido acordou e foi sentar-se no banco como sempre fazia.

Ela, por sua vez, levantou-se, cortou a lenha, apanhou a água, acendeu o fogo, cozinhou e lavou as roupas.

Daí ela percebeu que se ficasse em casa o resto da tarde olhando o marido não fazendo nada ela não iria aguentar e acabaria falando.

Resolveu, então, acabar rapidamente as tarefas e apanhando o véu, foi visitar uma amiga.

O marido vendo-a sair pensou:

“É estranho. Minha mulher nunca sai tão cedo. Ela deve estar querendo aprontar alguma.”.

Conto Persa - O marido teimoso e a esposa chata

Um pouco mais tarde passou um mendigo e vendo aquele homem ali sentado pediu comida e dinheiro.

O marido ia responder-lhe alguma coisa quando pensou

“Ah! Ah! Minha mulher mandou esse homem para me tentar e eu perder a aposta. Mas eu sou mais esperto, e não vou falar nada.”.

O mendigo falou várias vezes com o marido, chegou mesmo a gritar, mas vendo que ele não respondia deduziu que devia se tratar de um surdo-mudo.

Resolveu entrar na casa.

Lá encontrou queijos e pães e tudo mais.

Comeu até se fartar, e então foi embora.

O marido ficou furioso, mas não disse uma palavra.

O marido ainda estava fumegando de raiva quando passou por ali um barbeiro que ofereceu seus serviços.

O homem quase disse sim, mas pensando ser esta outra armadilha de sua esposa, ficou calado.

O barbeiro perguntou várias vezes e também chegou à conclusão que se tratava de um surdo-mudo.

Mesmo assim pensou em aparar sua barba, pois ela bem que estava precisando de um corte.

Depois de fazer seus serviços, o barbeiro fez um gesto pedindo dinheiro, mas o marido ficou mudo.

O barbeiro ficou com muita raiva e falou:

– Se você não me pagar eu vou cortar toda sua barba e seu cabelo e você vai ficar igual a uma mulher.

O marido ainda assim ficou em silêncio. 

Então o barbeiro raspou a barba do homem e fez seu cabelo, deixando-o ali.

O marido estava furioso e pensava todas as maneiras de punir sua mulher.

Mas ele iria ganhar a aposta não importasse o que custasse.

Um pouco depois uma mulher passou vendendo cosméticos e tratamento de beleza.

Ela era míope e pensou que o marido fosse uma mulher.

Então, ela se aproximou e disse:

– Querida, o que você está fazendo aí sentada sem seu véu? Você não tem marido, nem pai para cuidar de você?

O marido pensou, então, que sua esposa deveria estar muito desesperada para inventar todas aquelas armadilhas.

A mulher repetiu a pergunta várias vezes, mas o marido não respondeu, e, então, ela pensou tratar-se de uma surda-muda.

E disse:

– Meu Deus, que tristeza uma surda-muda e tão feia também! Bem, creio ao menos eu devo arrumá-la para melhorar seu aspecto!

E, então, ela colocou cremes, rouge, batom na face do marido.

Ela depois gesticulou pedindo dinheiro, mas como o marido se recusasse a dizer qualquer coisa ela revirou os bolsos dele e levou todo o dinheiro que ele tinha.

Passado um tempo estava o homem pensando em como castigar sua mulher quando apareceu um ladrão que disse:

– Minha senhora, o que está fazendo aqui fora sem seu véu? Acaso a senhora não tem quem lhe cuide, nem pai nem marido?

Bem, o marido mais uma vez se recusou a responder e pensou:

“Mas minha mulher não desiste!”.

Conto Persa - O marido teimoso e a esposa chata

E o ladrão tomando-o por uma surda-muda resolveu entrar na casa e qual não foi sua surpresa ao ver que ali havia muitas coisas de valor: tapetes, vasos e roupas.

Ele empacotou tudo numa grande mala e se foi fazendo um adeusinho para o marido que ali estava como uma mulher surda-muda.

Mas nisso o dia já havia andado e o pobre do bezerro estava no estábulo sem água nem comida.

O animal, então, arrebentou o estábulo e saiu em pinotes em direção à estrada.

A esposa ouviu um barulho estranho da casa de sua vizinha e foi ver o que era.

E logo que viu o seu bezerro pensou:

“Como será que ele escapou? Meu marido deve estar aprontando alguma!”.

Ela laçou o bezerro e puxando-o foi levá-lo de volta.

Mas ao se aproximar parou estarrecida ao ver uma mulher estranha sentada no banco de madeira.

E aí pensou:

“Puxa, eu saí de casa só por algumas horas e meu marido já arranjou outra mulher!”

Então, aproximou-se da mulher, que na verdade era seu marido e disse:

– Quem você pensa que é para estar sentada aqui na minha casa?

Aí o marido pulou e exclamou:

– Ah! Ah! Você falou primeiro. Então você vai tomar conta do bezerro de agora em diante!”.

E a mulher admirada falou:

– Você tirou sua barba e se fantasiou de mulher só para ganhar a aposta?

Ao que o marido replicou:

– Eu não fiz isso. Quem fez foram todas aquelas pessoas que você mandou para me provocar!

– Do que está falando? – Ela disse. – Eu não fiz nada disso.

E foi entrando furiosa dentro da casa.

Daí a um minuto ela saiu gritando:

– Aonde estão todas as nossas coisas?

O marido explicou tudo o que aconteceu e que o homem que ela havia contratado levara tudo.

E ela falou que não havia contratado ninguém.

O marido insistia dizendo:

– Não adianta me enganar. Você perdeu a aposta; não me venha com desculpas. De agora em diante você vai tomar conta do bezerro.

A mulher gritou-lhe:

– Você é um homem tolo e idiota! Você perdeu sua aparência, sua fortuna e tudo por causa de uma aposta. Eu, de fato, vou tomar conta do bezerro de agora em diante, porque eu estou indo embora, levando-o comigo. Eu não quero ter um marido burro e teimoso como você!

Dito isso ela saiu e foi embora com o bezerro.

Ao chegar no vilarejo ela perguntou às crianças se haviam visto um homem passar com uma grande mala ou saco e eles disseram que sim e mostraram que ele havia ido em direção ao deserto.

A esposa então, cobriu o rosto com seu véu e foi atrás do homem, puxando o seu bezerro.

E enquanto ela foi caminhando foi também arquitetando um plano.

Quando ela alcançou o ladrão num oásis, sentou-se próxima a ele e olhou-o nos olhos batendo as pestanas.

O ladrão que não havia ainda se casado ficou todo envaidecido por uma mulher atraente ter prestado atenção nele.

Ele perguntou-lhe o que fazia ela no deserto sozinha e se não tinha marido ou pai para cuidar dela.

Ao que a mulher respondeu:

– Se eu tivesse o que estaria fazendo só e com um único bezerro.

A partir daí começaram a conversar.

As horas tantas, ele pensou que poderia se casar com ela, pois parecia uma mulher forte e decidida.

E assim ele lhe propôs casamento ao que ela respondeu:

– Se nos casássemos como você nos sustentaria?

E o ladrão explicou que naquela mala havia o suficiente para mantê-los durante um bom tempo.

E a mulher disse:

– Deixe-me ver!

O ladrão falou:

– Ah! Não! Só depois de casarmos!

Os dois concordaram em parar na aldeia próxima e pedir ao juiz de paz que os casassem.

E assim foi, mas o juiz respondeu:

– Certamente, eu posso casá-los; só que hoje já é tarde e eu o farei amanhã. Vocês podem ficar na minha casa, cada um num quarto e amanhã eu realizarei o casamento.

Eles aceitaram.

Mas naquela noite a esposa esperou até que todos adormecessem e, então, foi no quarto do ladrão e viu que de fato eram todas suas as coisas que havia naquela mala.

Ela fechou a mala levou-a até onde estava o bezerro, amarrou-a no seu lombo.

Mas antes de sair, foi até a cozinha e fez uma cola de farinha e água e derramou-a nos sapatos do ladrão e do juiz de paz.

E daí partiu com seu bezerro e sua bagagem.

Na manhã seguinte quando o ladrão acordou viu que tanto sua futura esposa como sua mala haviam sumido.

Ao sair de casa viu as duas ao longe em direção do deserto.

Tentou ir atrás, mas seus sapatos estavam colados e na areia do deserto não se caminha descalço.

Ele tentou ir, mas teve que voltar, pois seus pés queimavam.

A mulher voltou para sua aldeia e pensou no seu marido.

Caminhou em direção a sua casa.

Quando lá chegou reparou que o banco de madeira estava vazio. “Algo deve ter acontecido,” – ela pensou.

Entrou na casa e não havia ninguém.

Mas o fogo estava aceso, algo cozia, a casa estava arrumada e varrida.

Quando saiu pela porta dos fundos viu seu marido estendendo roupas no varal.

Quando os dois se viram correram um para o outro e se abraçaram.

O marido confessou:

– Quando você partiu eu percebi quão tolo e teimoso eu fui. Eu perdi minha aparência, minha fortuna e minha esposa!

E a mulher disse:

– E eu percebi que era bem chata reclamando o tempo inteiro e que é bem desagradável ter uma companhia como eu era.

E os dois chegaram a um acordo.

A partir de então, os dois levantavam cedo, trabalhavam bastante o dia todo e quando chegava o anoitecer, sentavam-se juntos no banco de madeira para meditar e ter pensamentos profundos.


Veja também…

Vídeo: O que significa Amor?

Conto Persa - O marido teimoso e a esposa chata