Conto indiano: O cavaleiro perigoso

Este conto indiano mostra que por trás de toda ação está a consciência.

Existem os seguidores de regras e os que se movem pela essência.

O pior inimigo de alguém pode residir dentro dele mesmo.

Conto indiano - O cavaleiro perigoso

Conto indiano: O cavaleiro perigoso


Era um meio-dia quente.

Mas Rani e Paramanand não se importavam.

Seguiam seu caminho entretidos em animada conversa.

Estavam agora perto do rio.

No outro lado, encontravam-se a aldeia para onde se destinavam.

Deveriam entregar uma mensagem de seu Guru ao chefe da aldeia e tinham que estar de volta ao Ashram, à noitinha.

“Irmãos, não é possível achar uma balsa?” – Uma voz ansiosa perguntou a eles.

Viram, então, uma jovem esperando sob uma árvore Banian, sentada num banco.

“Nenhuma balsa pode ser encontrada dentro da distância de cinco milhas.” – Disse Paramanand.

“O que devo fazer então?”

A jovem não lançou a pergunta particularmente a Rani e a Paramanand, porém expressou-a para desabafar sua difícil situação.

“Por quê? Qual é o seu problema?” – Perguntou Rani.

“Minha mãe, que foi visitar a casa do meu tio, do outro lado do rio, há quinze dias, quando a água do rio chegava apenas ao joelho, está seriamente doente. Ela me quer a seu lado imediatamente. Mas como posso ir?” – Perguntou-se a si mesma a jovem, com voz angustiada.

“O que podemos fazer? Você deve caminhar pela margem, para o leste, se quiser achar uma estação de balsa.” – Disse Paramanand e entrou dentro da água.

“Minha irmã, posso carregá-la para o outro lado, se você não se importar com a inconveniência de sentar-se em meus ombros.” Propôs Rani.

Ele era forte e sua voz vibrante de sinceridade e simpatia.

A moça sorriu entre lágrimas.

Rani aproximou-se dela e ajoelhou-se.

Ela sentou-se em seus ombros.

Rani seguiu Paramanand e cuidadosamente atravessou para o outro lado, ajoelhando-se outra vez, na margem oposta, para que a jovem descesse.

Ela agradeceu-lhe e quase correu para a aldeia.

“Pobre moça! Estava tão ansiosa para ficar com sua mãe doente!” – Observou Rani.

Mas Paramanand não fez nenhum comentário.

De cara feia, conduziu-se como se Rani tivesse cessado de existir!

O alheamento de Paramanand permaneceu inalterado, mesmo durante a viagem de volta.

Se acaso falasse, era curto e rude com seu companheiro.

Quando voltaram ao Ashram relataram sua missão ao Guru.

“Foi tranqüila a viagem de ida e volta a seu destino?” – Perguntou o Guru.

“Oh! Sim, Guruji, foi muito agradável!” – Disse Rani.

Mas Paramanand nada disse.

“Vão comer e descansar. Vocês devem estar cansados.” – Disse o Guru a ambos, afetuosamente.

Os dois discípulos foram embora, mas, um pouco mais tarde, Paramanand retornou ao Guru.

“O que há com você? Por que está tão sombrio?” – Perguntou o Guru.

“Guruji, Rani disse-lhe que nossas viagem foi agradável. Talvez fosse para ele. Porém eu fiquei muito transtornado. Ele fez algo horrivel!” Replicou Paramanand.

“O que foi?” – Perguntou o Guru, um pouco intrigado.

“Quantas vezes temos sido avisados para não tocar em mulheres! Mas Rani fez essa coisa grotesca de levantar uma jovem mulher e carrega-la em seus ombros! Tremo só em pensar nisso. Sim, Guruji, ela era jovem e bela também. Podia ter dezesseis ou dezessete anos ou…”.

“Não importa a idade dela, Paramanand, vamos investigar o assunto.” – Respondeu o Guru, mandando-o para um canto do aposento.

Paramanand foi e sentou-se, murmurando, como se fosse para si mesmo: “Atravessar o rio carregando uma jovem! Ó meu Deus!”.

O Guru  mandou chamar Rani.

“Você encontrou alguma dificuldade ao caminho?” – Perguntou ao discípulo.

“Dificuldade? Não, Guruji! A única dificuldade que poderia haver seria se o rio estivesse cheio. Porém, o nível da água não era mais alto que meu peito. Eu até mesmo carreguei um viajante através das águas!”

“Um viajante? Uma jovem de dezesseis ou dezessete anos ou…” – Gritou Paramanand, incapaz de conter sua angústia por mais tempo.

“Certo. Era  uma jovem em apuro.” – Disse calmamente Rani.

“O que aconteceu a ela?” – Perguntou o Guru.

“Ela desceu na outra margem do rio e fugiu, pois sua mãe estava doente, se me lembro corretamente.” – Respondeu Rani.

“Muito bem. Pode ir.”

Rani foi embora.

O Guru disse para Paramanand se aproximar.

“Agora, Paramanand, quer fazer o favor de se livrar da jovem de dezesseis ou dezessete anos que está em seu pescoço?”

“No meu pescoço, Guruji? Nunca toquei nela! Ela sentou-se no pescoço de Rani!”

“Quanto ao que concerne a Rani, a jovem deixou-o na margem do rio. Mas ela não se separou de você durante todas essas horas. De fato, o cavaleiro perigoso está firmemente sentado em seus ombros, segurando sua garganta miserável com suas garras. Ele pode esganá-lo a não ser que você faça um esforço de homem para livrar-se dele!” – Disse o Guru.

Paramanand  ficou silencioso, a cabeça pendida.

Vagarosamente seus olhos encheram-se de lágrimas.

“Compreendo minha estupidez, senhor!” – Disse ele com voz sufocada.

Conto indiano - O cavaleiro perigoso