A água da vida, dos Irmãos Grimm

A água da vida dos Irmãos Grimm é um conto com várias imagens arquetípicas e que segue o enredo da jornada do herói.

Um ótimo conto para adultos e crianças.

Conto - A água da vida dos Irmãos Grimm

Considerações junguiana sobre o conto dos Irmãos Grimm


O conto dos Irmãos Grimm, apresenta inúmeras possibilidades simbólicas.

Destaco algumas presenças arquetípicas:

A água da vida dos Irmãos Grimm

O velho no início do conto pode ser concebido como a presença do velho sábio que apresenta possibilidades e a aventura a ser vivida. A busca da água da vida pelo jovem príncipe é uma bela metáfora do processo de individuação e trilhado sob o enredo da jornada do herói.


O anão pode ser a sombra. Projetada pelos irmãos do jovem príncipe e tratada com consideração por ele. Com estes personagens podemos refletir sobre os benefícios de reconhecimento da sombra e de como ela apode auxiliar diante dos perigos da vida.


Os irmãos do príncipe podem ser concebidos como a persona que é deslumbrada pelas coisas externas e é a antagonista do arquétipo da sombra personificado pelo anão.


A princesa pode representar a anima e o seu casamento com o príncipe uma expressão do casamento sagrado (coniunctio).


Estas são algumas das minhas interpretações. Lendo o conto você pode reinterpreta-las e ver novas interpretações.

E há muito mais nesta viagem ao mundo dos símbolos: a água da vida, a água salgada, o trigo, a espada, o caminho de joias…

Sinta-se livre para viajar!

Boa viagem!

Paulo Rogério da Motta


Conto - A água da vida dos Irmãos Grimm

A água da vida dos Irmãos Grimm


Era uma vez um rei muito poderoso que vivia feliz e tranquilo em seu reino.

Um dia adoeceu gravemente e ninguém esperava mais que escapasse.

Seus três filhos estavam consternados vendo o estado do pai piorar dia a dia.

Choravam no jardim quando surgiu à sua frente um velho de aspecto venerável que indagou a causa de tamanha tristeza.

Disseram-lhe estar aflitos por causa da enfermidade do pai, já que os médicos não tinham mais esperanças de o salvar.

O velho lhes disse: “Conheço um remédio muito eficaz que poderá curá-lo; é a famosa Água da Vida. Mas é muito difícil obtê-la.”.

O filho mais velho disse:

“Vou encontrá-la, custe o que custar.”

Foi imediatamente aos aposentos do rei, expôs-lhe o caso e pediu permissão para ir em busca dessa água.

“Não. Sei bem que essa água maravilhosa existe, mas há tantos perigos a vencer antes de chegar à fonte que prefiro morrer a ver um filho meu correndo esses riscos” – disse o rei.

O príncipe, porém, insistiu tanto que o pai acabou por consentir.

Em seu íntimo o príncipe pensava: “Se conseguir a água me tornarei o filho predileto e herdarei o trono.”.

Partiu, pois montado em rápido corcel na direção indicada pelo velho.

Após alguns dias de viagem, ao atravessar uma floresta viu um anão mal vestido que o chamou e perguntou:

“Aonde vais com tanta pressa?”

“Que tens com isso, homúnculo ridículo? Não é da tua conta”! – Respondeu altivamente sem deter o cavalo.

O anão se enfureceu e lhe rogou uma praga.

Pouco adiante o príncipe se viu entalado entre dois barrancos; quanto mais andava mais se estreitava o caminho, até que não pôde mais avançar nem recuar, nem voltar o cavalo nem descer.

Ficou ali aprisionado sofrendo fome e sede, mas sem morrer.

O rei esperou em vão sua volta.

O segundo filho, julgando que o irmão tivesse morrido, ficou contentíssimo pois assim seria o herdeiro do trono.

Foi ter com o pai e lhe pediu para ir em busca da Água da Vida.

O rei respondeu o mesmo que ao primeiro; por fim cedeu ante a insistência do rapaz.

O segundo príncipe montou a cavalo e seguiu pelo mesmo caminho.

Quando atravessava a floresta surgiu-lhe o anão mal vestido e lhe dirigiu a mesma pergunta:

“Para onde vais com tanta pressa?”

“Pedaço de gente nojento! Sai da minha frente se não queres que te espezinhe com meu cavalo.”.

O anão lhe rogou a mesma praga, assim o príncipe acabou entalado nos barrancos como o irmão.

Passados muitos dias sem que os irmãos voltassem, o mais moço foi pedir licença ao pai para ir buscar a Água da Vida.

O rei não queria consentir, mas foi obrigado a ceder ante suas insistências.

Conto - A água da vida dos Irmãos Grimm

O jovem príncipe montou em seu cavalo e partiu; quando encontrou o anão na floresta e ele, que era delicado e amável, deteve o cavalo dizendo:

“Vou em busca da Água da Vida, o único remédio que pode salvar meu pobre pai, que está à morte.”

“Sabes onde se encontra?” – perguntou o anão.

“Não.” .

“Pois já que me respondeste com tanta amabilidade vou te indicar o caminho. Ao sair da floresta não te metas pelo desfiladeiro que está à frente, vira à esquerda e segue até uma encruzilhada; aí segue ainda à esquerda. Depois de dois dias encontrarás um castelo encantado: é no pátio dele que se encontra a fonte da Água da Vida. O castelo está fechado com um grande portão de ferro maciço, mas basta tocá-lo três vezes com esta varinha que te dou para que se abra de par em par. Assim que entrares verás dois leões enormes prestes a se lançarem sobre ti para te devorar; atira-lhes estes dois bolos para apaziguá-los. Aí corre ao parque do castelo e vai buscar a Água de Vida antes que soem as doze badaladas, senão o portão se fecha e tu ficarás lá preso.”

O príncipe agradeceu gentilmente, pegou a varinha e os dois bolos e se pôs a caminho, e conforme as indicações chegou ao castelo.

Com a varinha mágica bateu três vezes e o imenso portão se abriu; ao entrar os dois leões se arremessaram contra ele de bocas escancaradas, mas atirou-lhes os dois bolos e não sofreu mal algum.

Porém antes de se dirigir à fonte da Água da Vida não resistiu à tentação de ver o que havia no interior do castelo, cujas portas estavam abertas: galgou as escadas e entrou.

Viu uma série de salões grandes e luxuosos.

No primeiro, imersos em sono letárgico, viu uma multidão de fidalgos e criados.

Sobre uma mesa estava uma espada e um saquinho de trigo; pressentiu que lhe poderiam ser úteis e levou-os consigo.

Indo de um salão a outro, no último deu com uma princesa de rara beleza, que se levantou e disse que, tendo conseguido penetrar no castelo, destruíra o encanto que pesava sobre ela e todos os súditos do seu reino; mas o efeito do encantamento só cessaria mais tarde.

“Dentro de um ano, dia por dia, se voltares aqui serás meu esposo”.

Depois lhe indicou onde estava a fonte da Água da Vida e se despediu, recomendando-lhe que se apressasse para poder sair do castelo antes do relógio da torre bater as doze badaladas do meio-dia, porque nesse exato momento os portões se fechariam.

O príncipe percorreu em sentido inverso todos os salões por onde passara, até que viu uma belíssima cama com roupas muito alvas e recendentes; cansado que estava da longa caminhada deitou-se para descansar um pouco e adormeceu.

Felizmente mexeu-se e fez cair no chão a espada que colocara a seu lado, despertando com o barulho.

Levantou-se depressa: faltava um minuto para o meio-dia e mal teve tempo de correr ao parque, encher um frasco com a água preciosa e fugir.

Ao transpor os batentes da entrada soou o relógio dando meio-dia; o portão se fechou com estrondo e tão rápido que ainda lhe arrancou uma espora.

No auge da felicidade por ter conseguido a água que salvaria seu pai e ansioso por se ver no palácio pulou sobre a sela e partiu a galope.

Na floresta encontrou o anão no mesmo lugar, o qual vendo a espada e o saquinho de trigo disse:

“Fizeste bem em guardar este precioso tesouro. Com essa espada vencerás sozinho o mais numeroso exército, e com o trigo desse saquinho terás todo o pão que quiseres e nunca se lhe verá o fundo.”

O príncipe estava porém apoquentado com a desgraça dos irmãos, e perguntou se o anão poderia fazer algo por eles.

“Posso, ambos estão pouco distante daqui entalados em barrancos muito apertados; amaldiçoei-os por causa de seu orgulho.”.

O príncipe rogou encarecidamente que os perdoasse e libertasse, e o anão cedeu às suas súplicas.

“Mas te advirto que te arrependerás. Não te fies neles, são de mau coração; liberto-os apenas para te ser agradável.”.

Assim dizendo fez os barrancos se afastarem libertando os entalados, pouco depois reunidos ao irmão que os esperava.

Muito feliz por tornar a vê-los o príncipe lhes narrou suas aventuras e disse que daí a um ano voltaria para desposar a maravilhosa princesa e reinar com ela sobre um grande país.

Puseram-se os três de regresso para casa.

Atravessaram um reino assolado pela guerra, estando o rei desesperado de poder salvar-se e a seu povo.

O príncipe confiou-lhe então o saco de trigo e a espada mágica, com os quais o rei derrotou os exércitos invasores e encheu os celeiros até o forro.

A água da vida dos Irmãos Grimm

O príncipe tornou a receber a espada e o saquinho de trigo e os três irmãos seguiram viagem, tomando um navio para encurtar o caminho.

Durante a travessia os dois irmãos mais velhos, devorados de ciúmes, começaram a conspirar contra o mais novo.

“Nosso irmão conseguiu a Água da Vida e nós não; com isso nosso pai o promoverá a herdeiro do trono que deveria ser nosso e nada nos restará.”

Então juraram perdê-lo.

De noite quando ele dormia furtaram-lhe o frasco e substituíram a Água da Vida por água salgada.

Tentaram também roubar-lhe a espada e o saquinho de trigo, mas os objetos desapareceram de repente.

Chegando em casa o jovem correu para o pai e lhe apresentou o frasco para que logo sarasse.

Mal engoliu alguns goles daquela água salgada o rei piorou sensivelmente.

Estava se lastimando quando chegaram os mais velhos e acusaram o irmão de ter querido envenenar o pai.

Eles, porém, traziam a verdadeira Água da Vida e a ofereceram.

Apenas bebeu alguns goles pode se levantar do leito cheio de vida e saúde como nos tempos da juventude.

O pobre príncipe, expulso da presença do pai, se entregou ao maior pesar.

Os dois mais velhos vieram ter com ele rindo e mofando:

“Pobre tolo! Tu tiveste todo o trabalho e conseguiste encontrar a Água da Vida mas nós tivemos o proveito; devias ser mais esperto e manter os olhos abertos, enquanto dormias a bordo trocamos o frasco por outro de água salgada. E poderíamos se quiséssemos ter-te atirado ao mar para nos livrarmos de ti, mas tivemos dó. Livra-te contudo de reclamar e contar a verdade ao nosso pai, que não te acreditaria; se disseres uma só palavra não nos escaparás, perderás a vida. Também não penses em ir desposar a princesa daqui a um ano, ela pertencerá a um de nós dois.”

O rei estava muito zangado com o filho mais moço, julgando que o quisera envenenar.

Convocou seus ministros e conselheiros e lhes submeteu o caso.

Foram todos de opinião que o príncipe merecia a morte e o rei decidiu que fosse morto secretamente por um tiro.

Partindo o moço para a caça sem suspeitar de nada um dos criados do rei foi encarregado de acompanhá-lo e matar na floresta.

Chegando ao lugar destinado o criado, que era o primeiro caçador do rei, estava com um ar tão triste que o príncipe lhe indagou a razão:

“Que tens, caro caçador?”

“Proibiram-me de falar, mas devo dizer tudo.”

“Dize então o que há, nada temas.”

“Estou aqui por ordem do rei e devo matar-vos.”

O príncipe se sobressaltou mas disse:

“Meu amigo, deixa-me viver. Dar-te-ei meus belos trajes em recompensa e tu me darás os teus, que são mais pobres.”

“Da melhor boa vontade” disse o caçador.

“É preciso que o rei julgue que executaste suas ordens senão sua cólera recairá sobre ti. Vestirei estas roupas feias e tu levarás as minhas como prova de que me mataste. Em seguida abandonarei para sempre este reino.”

Assim fizeram.

Pouco tempo depois o rei viu chegar uma embaixada faustosa do rei vizinho incumbida de entregar ao bom príncipe os mais ricos presentes em agradecimento por ter ele salvo o reino da fome e da invasão do inimigo.

Diante disso o rei se pôs a refletir: “Meu filho seria inocente?” e comunicou aos que o serviam:

“Como me arrependo de o ter mandado matar! Ah, se ainda estivesse vivo …”.

Encorajado por estas palavras o caçador revelou a verdade. Disse ao rei que o bom príncipe estava vivo mas em lugar ignorado.

Imediatamente o rei mandou um arauto proclamar por todo o país que considerava o filho inocente e que desejava imensamente sua volta.

Mas a notícia não chegou ao príncipe; encontrara seu amigo anão, que lhe dera ouro suficiente para poder viver como um filho de rei.

Nesse ínterim a princesa do castelo encantado que ele livrara do sortilégio mandara construir uma avenida toda calçada com chapas de ouro maciço e pedras preciosas que conduzia diretamente ao castelo, explicando aos seus vassalos:

“O filho do rei que será meu esposo não tardará a chegar; virá a galope bem pelo meio da avenida. Mas se outros pretendentes vierem, cavalgando à beira da estrada, expulsem-nos a chicotadas.”

Com efeito, dia por dia, um ano depois do jovem príncipe ter penetrado no castelo, o irmão mais velho achou que podia se apresentar como sendo o salvador e receber a princesa por esposa.

Vendo aquela avenida calçada no meio de ouro e pedrarias não quis que o cavalo estragasse com as patas tanta riqueza que já considerava sua e fez o animal passar pelo lado direito.

Quando chegou diante do portão e disse ser o noivo da princesa todos riram e depois o correram de lá a chicote.

Pouco tempo depois veio o segundo príncipe, e vendo todo aquele ouro e joias pensou que seria um pecado arruiná-los; fez o cavalo galopar pelo lado esquerdo e se apresentou como sendo o noivo da princesa.

Teve a mesma sorte do irmão mais velho: foi corrido a chicote.

Findava o ano estabelecido e o terceiro príncipe resolveu deixar a floresta para ir ter com sua amada e a seu lado esquecer as mágoas.

Pôs-se a caminho pensando só na felicidade de tornar a ver a linda princesa; ia tão embebido que nem sequer viu que a estrada estava toda coberta de pedras preciosas.

Deixou o cavalo galopar pelo meio da avenida, e quando chegou diante do portão do castelo este lhe foi aberto de par em par.

Soaram alegres fanfarras e uma multidão de fidalgos saiu para recebe-lo.

Conto - A água da vida dos Irmãos Grimm

Dentro em pouco apareceu a princesa, deslumbrante de beleza, que o acolheu cheia de felicidade e declarou a todos que ele era seu salvador e senhor daquele reino.

As núpcias foram realizadas imediatamente em meio a esplêndidas festas.

Terminadas as festas, que duraram muitos dias, ela lhe contou que seu pai o havia proclamado inocente e desejava vê-lo de novo.

Acompanhado da rainha sua esposa ele foi ter com o pai e contou-lhe tudo que se passara: como fora traído pelos irmãos e como estes o obrigaram a se calar.

O rei, extremamente irritado contra eles, mandou que seus arqueiros os trouxessem à sua presença a fim de receberem o castigo merecido, mas vendo suas maldades descobertas eles tinham tomado um barco tentando fugir para terras longínquas para aí esconderem sua vergonha.

Não o conseguiram.

Sobreveio uma tremenda tempestade que tragou o navio e eles pereceram miseravelmente.