A deusa do amor e a prostituta sagrada

A prostituta era sacerdotisa e representava a deusa do amor.

Amor divino e sexo era um caminho religioso que ligava o humano ao sagrado.

A deusa do amor e a prostituta sagrada

A deusa do amor e a prostituta sagrada


Antigas tabuletas de argila, pinturas em vasos e estatuetas de civilizações na Babilônia e na Suméria, datando de cerca de 18000 a.C. descrevem ou representam mulheres que praticavam o ato do amor nos templo sagrados.

Cilindros de Gudea (Louvre)
Cilindros de Gudea (Louvre)

A deusa do amor tinha a prostituta como sua sacerdotisa.

A deusa do amor era representada por uma prostituta sagrada que se oferecia a um estranho num ritual transformador em que se vivia a plenitude da natureza feminina como símbolo de fertilidade e vida.

A sacerdotisa era a sagrada representante do amor divino e o sexo era um caminho religioso ao ligar o humano ao sagrado.

O ato sexual era um ritual de hieros gamos ou casamento divino.

Inana
Inana

Inana era a deusa suméria do amor e da fertilidade e era venerada por personificar a bênção da vida e a fecundidade da terra e a representação da fertilidade e do amor.

Posteriormente as características da deusa foram divididas e havia a deusa da fertilidade e a deusa do amor (exemplo: Deméter e Afrodite).

A deusa do amor e a prostituta sagrada

Degradada e não mais sagrada


O tempo passou e a  prostituta sagrada com a chegada do patriarcado passou a ser associada ao fruto proibido, serpente e outras representações ligadas ao desvio do sagrado e do pecado sedutor tendo a mulher como símbolo da perdição do divino, como no mito de Eva.

A sensualidade da mulher deixando de ser vista como dádiva divina foi rebaixada e passou a ser explorada, assim a mulher passou a ser degradada ao invés de ser sagrada.

O sagrado passou a ser masculino e os vestígios da deusa foram sendo apagados.

O amor passou a ser dissociado do corpo e a sexualidade um obstáculo à espiritualização.

O celibato foi se estabelecendo como sendo o único caminho para o sagrado e ao masculinizar o sagrado somente o homem podia representar a divindade.

A mulher passou a ser objeto e o homem precisava ter uma mulher somente para não cair no pecado da fornicação.

Assim surgiram as consequências da perda do sagrado feminino:

  • Perda da imagem do feminino sagrado
  • Negação de papeis religiosos/espirituais à mulher
  • Servidão feminina
  • A “coisificação” da mulher…

O efeito de se excluir a deusa do amor foi o de que o espiritual foi divorciado do material.

E, assim a busca do material passou a prevalecer sobre a busca do espiritual.

A deusa do amor e a prostituta sagrada

O material deixa de ser espiritual


A prostituta sagrada encarnava tanto a sexualidade quanto a espiritualidade da natureza feminina.

A perde do aspecto feminino do sagrado deu mais poder ao homem e consequentemente a dominação dos aspectos psicológicos masculinos.

São características da psicologia masculina a competição, a conquista e o “ter”.

E o mundo se tornou preponderantemente masculino e materialista.

Aquele que leva a vida mundana busca o material e o material deixou de ser sagrado.

Vale lembrar a raiz da palavra material:

Material →  Mater →  Mãe

A deusa do amor é a Grande Mãe e ela era representada pela mulher.

A mulher deixou de ter um papel no sagrado e perdeu posição no mundo.

A deusa do amor e a prostituta sagrada

A prostituta sagrada na psique feminina


O resgate do sagrado feminino resgata não somente o papel da mulher, mas também o resgate do material que poderá novamente ser visto como expressão divina.

As consequências deste resgate do sagrado feminino podem trazer inúmeros benefícios como:

  • O corpo deixar de ser objeto e ser um templo
  • A natureza ser respeitada por ser a expressão da divindade
  • As características da psicologia feminina serem incorporadas na cultura humana, etc.

E a prostituta sagrada tem papel para que tudo isto aconteça!

A prostituta sagrada é uma imagem arquetípica com face humana e divina e a duplicidade de faces é necessária pela impossibilidade de se contemplar diretamente um arquétipo, que neste caso é a face divina, pois a contemplação direta de um arquétipo leva à opressão do ego.

Estas duas faces: a humana e a divina numa mesma psique é um elo que une o ser humano à sua divindade, seja ela qual for.

A prostituta sagrada psiquicamente é também a mulher mortal devotada à deusa e que faz de sua beleza, graça, liberdade, autoconsciência e sexualidade atributos de reverência à sua natureza feminina.

E vale lembrar que a prostituta sagrada é uma presença arquetípica e arquétipos não morrem!

O papel da prostituta sagrada é:

  • Fazer do sexo um encontro de almas
  • Fazer do gozo um momento de elevação
  • Tornar o corpo da mulher um templo que deve ser respeitosamente visitado

Com o resgate arquetípico da prostituta sagrada a deusa do amor exercerá sua influência e o que foi equivocadamente declarado como profano se tornará novamente sagrado.

O mundo se tornará bem melhor!